quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Nuvens de fogo

Ocorreram na Austrália e Califórnia, mas não é a primeira vez que foram registradas na França, mais de 300 mil pessoas na Espanha e França receberam ordens de evacuação depois que incêndios florestais devastarem as nações nos últimos dias e a Espanha declarou emergência nacional, ao passo que, autoridades de Bordeaux alertaram que o incêndio florestal pode continuar arder por vários meses. À medida que continuam as evacuações especialistas alertam que ‘as nuvens de fogo’ tornam os incêndios mais intensos, essencialmente, pirocumulonimbus, ou, nuvens de fogo, ou, tempestade de fogo gigantescas criadas por incêndio florestal, apelidadas pela NASA de ‘dragões cuspidores de fogo’, nuvens criadas pela 1ª vez quando incêndios geram calor fazendo com que o ar suba acima do incêndio, enquanto fumaça, cinzas e vapor d'água entram na atmosfera e, quando o ar se eleva, esfria e o vapor condensa em nuvens. Já foram raras, mas agora aumentaram em frequência por conta de incêndios intensos que criam nuvens de fogo podendo atingir altitudes de 10–15 kms, mais prováveis quando há condições perigosas como altas temperaturas, pouca umidade e ventos fortes, podendo tornar incêndios florestais mais imprevisíveis e perigosos gerando seus próprios raios e provocando mais fogo longe da zona de impacto inicial, além de fazer com que ventos fortes espalhem os incêndios mais rápido. A coordenadora de previsão de incêndio do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, ECMWF, Dra. Francesca Di Giuseppe, disse que pirocumulonimbus podem injetar fumaça na troposfera superior ou mesmo estratosfera inferior, em altitudes comparáveis as associadas a erupção vulcânica moderada’, por vezes, nuvens de fogo podem produzir chuva para ajudar extinguir um incêndio. No Verão Negro de 2019 e 2020 na Austrália criaram ‘tempestades de fogo’ extremas ou, seu próprio clima, relatadas na Califórnia no verão de 2021 elevando-se 1,6 kms acima do estado, tornando-se comuns graças às alterações climáticas que criam condições à ocorrência de incêndios florestais e, conforme a Royal Meteorological Society, provavelmente serão mais frequentes à medida que condições mais quentes e secas aumentam risco de incêndios florestais. No entanto, esta é a 1ª vez que nuvens de fogo são vistas na França. Rick McRae, professor adjunto do grupo de pesquisa sobre incêndios florestais da Universidade de Nova Gales do Sul, diz que, ‘é a 1ª vez que a França considera explicitamente o conceito de um piroCb’ e, conclui, ‘se tiveram ou não em alguns dias atrás não é realmente a questão,’ disse, ‘a questão é se haverá um ou vários daqui para frente. 

Ainda no quesito mudanças climáticas, surge a notícia que a Louisiana enfrenta surto de infecções por Vibrio vulnificus, conhecida como bactéria comedora de carne, que normalmente vive em águas costeiras quentes como as encontradas na Grand Isle, na Louisiana. O Departamento de Saúde da Louisiana forneceu notícias sobre o Vibrio vulnificus, ou seja, que houve surto de infecções por Vibrio vulnificus em 2026 e já houveram 9 casos de infecções resultando em intercorrências, hospitalizações e 5 mortes. Representa aumento significativo em relação à média de 7 casos e 1 morte na última década e, pelo aumento do número de casos em relação a década passada foi designado 'surto', sendo que o Vibrio vulnificus é conhecido como bactéria comedora de carne porque é uma das espécies de bactérias que causam fasciíte necrosante, ou, apodrece o tecido que fica abaixo da pele sendo o agente bacteriano mais comum o Streptococcus do Grupo A. Vale a nota que a palavra “fáscia” se refere a fina e extensa camada de tecido que se localiza abaixo da pele e do sufixo “ite”, que significa inflamação e o termo necrosante se refere a palavra morte, daí, o Vibrio Vulnificus pode causar fascite necrosante que se refere a infecção bacteriana grave que causa morte da fáscia e do tecido acima dela, daí o apelido “comedor de carne”.  Tal  evento pode ocorrer quando bactérias “que comem carne” penetram no  organismo através de fissura na pele como arranhão ou picada de inseto, o detalhe é que, são tóxicas, liberam toxinas que impedem o sangue fluir na área danificada levando a morte do tecido ou necrose. A toxicidade pode se espalhar à outras partes do corpo como órgãos importantes, causando danos e a interferência do sangue nos tecidos do corpo é análoga ao corte das principais vias à determinado local, em consequência, cirurgia de emergência se impõe como tratamento para impedir propagação da infecção levando eventualmente à sepse, ou, disseminação da bactéria no organismo, choque, ou, queda de pressão, falência múltipla de órgãos e morte. A fasciíte necrosante não é condição muito comum podendo aumentar a incidência quando da presença de bactérias carnívoras como o Vibrio vulnificus, aumenta em água salgada ou salobra costeira quente entre os meses de maio e outubro e como resultado, pode ser encontrada em mariscos que habitam essas águas. Por fim, sintomas da fasceíte necrosante como febre, calafrios, dores no corpo, náuseas, diarreia ou dor na área infectada, começam em 24 horas pós o Vibrio vulnificus entrar no corpo além de pele descolorida e quente, inchaço, piora da dor e bolhas com líquido sanguinolento ou amarelado. Por fim, mudanças climáticas podem estar levando a cada vez mais casos de Vibrio Vulnificus e, a Louisiana não é o único estado com casos em 2026, a Flórida já teve 2 mortes pela bactéria e o Departamento de Saúde de Maryland teve 29 casos confirmados e 114 prováveis de Vibrio vulnificus até agora e, à medida que a água esquenta, patógenos potenciais crescem e se tornam mais concentrados, podendo causar mais doenças e possivelmente a morte, quer dizer, a continuação das alterações climáticas pode levar a cada vez mais a novos casos  nos próximos anos. Um detalhe, publicação de 2024 no periódico científico PLOS Pathogens chamada Vibrio vulnificus a “organismo sensível ao clima por excelência”, descreveu que alterações climáticas estão tornando a água dos oceanos mais quente aumentando locais onde o Vibrio vulnificus pode crescer e, portanto, onde pode ocorrer infecções.

Moral da Nota: o geógrafo árabe Al-Sharif al-Idrisi na Sicília do século XII desenvolveu uma das obras científicas mais importantes da Idade Média, ou, Nuzhat al-Mushtaq fi Ikhtiraq al-Afaq, ou, o deleite de quem anseia por viajar pelos horizontes, enciclopédia geográfica reunindo mapas e descrições do mundo conhecido. Obra encomendada pelo rei normando Rogério II e desenvolvida ao longo de 15 anos, entre 1138 e 1154 e, para realizá-lo, Al-Idrisi baseou-se em suas viagens, consultou obras de geógrafos anteriores e coletou depoimentos de mercadores, marinheiros e viajantes, comparando informações e descartando relatos contraditórios. Dividiu o mundo em 7 regiões climáticas, cada uma subdividida em 10 seções, resultando em 70 mapas interconectados em que cada um acompanhava informações sobre cidades, rios montanhas, mares, rotas comerciais, condições econômicas e sociais e, cada obra incluía cálculos da circunferência da Terra estando ligada a um globo de prata com um mapa-múndi gravado. O trabalho combinou geografia física, humana e econômica, tornou-se registro da vida, arquitetura e relações comerciais e políticas do século XII, sendo que o Nuzhat al-Mushtaq teve ampla circulação sendo traduzido ao latim e demais línguas europeias utilizadas nos séculos por geógrafos e viajantes, inclusive no Renascimento. Atualmente os manuscritos estão em instituições como a Biblioteca Nacional da França, Biblioteca Bodleiana em Oxford e coleções em Istambul com historiadores como Hussein Mounis, Samuel Parsons Scott e Michele Amari destacando a importância de Al-Idrisi e considerando sua obra como uma conquista da geografia medieval e civilização árabe-islâmica. Nasceu em Celta por volta de 1100 sendo seu nome completo Abu Abdullah Muhammad ibn Muhammad al-Idrisi, viajou por Al-Andalus, Marrocos e Levante antes de estabelecer na corte de Rogério II na Sicília e, além da geografia, cultivou a botânica, medicina, astronomia e literatura e 9 séculos depois, Nuzhat al-Mushtaq continua sendo obra na história da geografia e cartografia e testemunho dos estudiosos árabes no desenvolvimento do conhecimento científico global.


quarta-feira, 12 de agosto de 2026

El Nino

Os alertas se dirigem ao ‘super El Nino’ que ocorre quando a temperatura da superfície do oceano aumentam mais de 2º C acima da média, considerado fenômeno de aquecimento natural, abreviado como ENSO, é o componente oceânico, ou, o aquecimento das temperaturas da superfície no Pacífico tropical central e oriental enquanto a Oscilação Sul, SO, é o componente atmosférico na pressão do ar entre o Pacífico tropical oriental e ocidental, ou, Taiti e Darwin, na Austrália. Em termos numéricos espera-se que custe US$ 84 bilhões por um ano de seca, tempestades e inundações na África Oriental, enquanto 5 eventos deste porte foram registrados desde 1950, sendo o mais recente em 2015 alegadamente o mais forte já registrado, afetando mais de 60 milhões pessoas mudando padrões climáticos entre secas severas, quebras de colheitas e insegurança alimentar nos trópicos, ao mesmo tempo inundações devastadoras e ondas de calor intensas. Na região do Pacífico, no sul da Ásia, estimativa de 4,1 milhões de pessoas com maior risco em um evento climático El Niño,  chuvas de monções menores levando à seca e redução da produtividade nas colheitas seguidas de condições úmidas ao pico do El Niño, levando ao aumento de surtos de cólera e malária na região. No Atlântico as secas levaram ao fracasso das colheitas, especialmente milho, causando escassez local de alimentos na África do Sul, isto, na crença que o super El Nino previsto para chegar seja o mais quente de todos os tempos, com aquecimento do oceano de 2,5ºC acima do normal, considerando que o deslocamento de água quente no leste do Pacífico afeta a evaporação e, em consequência, fornece mais vapor de água à atmosfera resultando em precipitação maior nas terras vizinhas. Países do lado ocidental da América do Sul devem ter condições mais húmidas que o normal, incluindo tempestades severas em uma fase do El Nino e o Japão, o oeste da América do Norte pode experimentar clima mais úmido e quente que o normal, quer dizer,tempestades e inundações relacionadas ao ENSO podem causar estragos em áreas onde o clima é normalmente seco. Por fim, a questão está no fato que o El Nino sempre teve impacto na agricultura, mas, em tempos recentes, a combinação com mudanças climáticas mostra-se devastadora, pois ambas aumentam as temperaturas globais, sendo que a tendência mostra que o Pacífico deverá ser o mais afetado por um Super El Nino e, na Austrália, incêndios florestais naturais e seca terão efeitos intensificados, na América do Sul como Peru e Equador provavelmente terão clima mais úmido causando inundações devastadoras.

O Met Office afirma ‘Os anos do El Nino é fator que pode aumentar o risco de invernos mais frios no Reino Unido’ ao alterar padrões globais de vento, especificamente enfraquecendo e deslocando correntes no Atlântico, sendo provável impacto imediato menos dramático embora temperaturas mais altas sejam mais prováveis no verão com períodos mais frios nos últimos meses de inverno. Devemos considerar que El Nino ou mudanças climáticas se inserem em Calor global extremo, Inundações regionais, Secas e incêndios florestais regionais, quebras de colheitas e escassez de alimentos, além do muito falado branqueamento de corais e danos à pesca, com cientistas climáticos avisando que o padrão climático extremo deverá ser afetado 'indiretamente' na Grã-Bretanha e será 'um dos fatores climáticos que influenciam clima e padrões na Europa e Reino Unido.' Consideram que "seus impactos no Reino Unido são indiretos, podendo aumentar a probabilidade de condições mais instáveis no final de 2026 incluindo oportunidade de clima mais úmido no outono e início do inverno, no entanto, quaisquer impactos potenciais serão avaliados com mais detalhes na época oportuna à medida que as previsões evoluem." Emily Black, professora de processos terrestres e clima, líder da divisão de pesquisa de Observação da Terra e Espaço, disse que "impactos do El Nino geralmente não são fortes o suficiente para exigir resposta específica, no entanto, como em qualquer inverno, é sensato permanecer preparado às tempestades, inundações e ondas de frio ocasionais". Avalia que nas "regiões tropicais, a preparação depende diretamente dos impactos regionais esperados, por exemplo, quando o El Nino se associa à seca, agricultores podem considerar o uso de variedades de culturas mais tolerantes ao clima seco ou de maturação mais rápida, podendo precisar adiar o plantio se as chuvas demorarem a se estabelecer."

Moral da Nota: a questão tem início com algo chamado ventos alísios, ou, ventos permanentes ao redor do equador que sopram de leste a oeste, assim, no Pacífico equatorial, sopram das Américas em direção à Austrália e Nova Zelândia e, à medida que o vento sopra a água à leste, esta é aquecida pelo sol e quando chega ao outro lado do Pacífico a água quente faz com que o ar quente suba levando a clima quente, úmido e instável, enquanto isso, a água mais fria das profundezas oceânicas sobem no leste à substituir a água soprada ao oeste, aí, a questão, quando padrões de precipitação e vento mudam no Pacífico equatorial ocorrem repercussões no mundo. Nos EUA poderia ocorrer grande impacto principalmente depois que o Centro de Previsão Climática que havia 82% de chance do fenômeno climático ocorrer entre maio e julho, podendo haver período sustentado em que o oceano e a temperatura da água é mais quente que a média, significando mais inundações em algumas partes do país, enquanto em outras levaria a temperaturas mais altas, secas e incêndios florestais. Daí o alerta que "no verão, haveria um padrão mais quente e seco no noroeste dos EUA, levando a grandes incêndios florestais", com o super El Nino no verão, no entanto, "seca severa pode se expandir do noroeste a parte norte das Montanhas Rochosas nos verões do El Nino que passam para um El Nino forte a muito forte no outono até o início do inverno", em consequência, tempestades na costa oeste dos EUA, enquanto no leste haveria condições secas que durariam uma semana antes de fortes chuvas e o tempo seco poderia levar a uma "seca prolongada moderada a severa". Em suma, muita chuva em pouco tempo não faria muito pelas fazendas, significando que pode não haver tantas colheitas devido às intensas oscilações climáticas impactando o solo.