quarta-feira, 5 de agosto de 2026

Ação Silenciosa

Pesquisadores da Universidade de Utrecht, Holanda, e da Universidade de Groningen detectaram altos níveis de metalsiloxanos, poluente de silício, no ar de cidades, áreas rurais e florestas, no entanto, pouco estudado. Publicado na Atmospheric Chemistry and Physics, revela que concentrações dos compostos foram encontradas em áreas urbanas e em menores áreas florestais, por exemplo, em São Paulo, Brasil, os níveis de metilsiloxano chegaram a 98 nanogramas/metro cúbico, ao passo que em florestas de Rugsteliskis, cidade lituana, o valor caiu para 0,9, no entanto, alertam à inalação de mais metilsiloxanos diariamente que PFAS, perfluoroalquiladas, ou microplásticos, considerando que esses compostos representam entre 2%/4,3% da massa de aerossóis orgânicos presentes no ar, quer dizer, podemos estar inalando diariamente um contaminante de silicone pouco estudado em quantidades maiores que inalamos PFAS ou microplásticos. Cientistas avisam que metade dos metilsiloxanos de alto peso molecular são oriundos de emissões veiculares, particularmente aditivos em óleos de motor, pois, como resistem a altas temperaturas, não se decompõem na combustão e são liberados nos gases de escapamento, ao contrário de outros hidrocarbonetos, são compostos estáveis ​​e podem percorrer longas distâncias na atmosfera.

Os efeitos na saúde a longo prazo são desconhecidos, urgindo, segundo os cientistas, necessidade de avaliação, no entanto, foi observado que esses poluentes podem alterar a formação de nuvens e outros processos climáticos, modificando a tensão superficial e nucleação do gelo. Vale observar que grande parte da poluição circula na atmosfera urbana, regiões rurais e florestas e, em sua maioria, oriundas de emissões veiculares, provavelmente relacionadas a aditivos de óleo de motor que sobrevivem à combustão e escapam ao ar, considerando que seres humanos podem inalar mais desses compostos diariamente que outros poluentes como PFAS ou microplásticos. Compostos químicos conhecidos como metilsiloxanos são usados ​​em cosméticos, produtos industriais, transportes e itens domésticos, encontrados em ampla variedade de ambientes, de grandes cidades a vilarejos rurais e florestas. Importante observar que poluentes como PFAS e microplásticos são conhecidos pela presença no ambiente, enquanto os metilsiloxanos são classe de compostos de silicone hidrorrepelentes usados ​​como lubrificantes, com menor visibilidade cienfíca, já que durante anos, cientistas acreditaram que os metilsiloxanos detectados na atmosfera provinham da evaporação de produtos de higiene pessoal e materiais industriais e, recentemente, descobriram que navios e veículos motorizados liberam forma de metilsiloxanos composta por moléculas maiores que não evaporam facilmente. A pesquisa observou que esses metilsiloxanos maiores não se limitam a locais com tráfego intenso, sugerindo ampla distribuição na atmosfera, com Rupert Holzinger, professor associado da Universidade de Utrecht, co-orientador do estudo, esclarecendo que "os resultados sugerem que concentrações de metilsiloxano na atmosfera são maiores que o esperado", quer dizer, metilsiloxanos de grande porte representam entre 2/4,3% da massa total de aerossóis orgânicos na atmosfera, tornando-os alguns dos compostos sintéticos mais abundantes detectados em partículas em suspensão e, comparados as concentrações atmosféricas de PFAS, são tipicamente mais de mil vezes menores. Quando adicionados aos lubrificantes, têm como objetivo auxiliar na lubrificação e não na combustão, no entanto, no funcionamento do motor as peças móveis como os pistões, requerem lubrificação constante tornando inevitável a entrada de pequenas quantidades de óleo do motor na câmara de combustão, daí, por conta dos metilsiloxanos serem altamente resistentes ao calor e não se decomporem completamente na combustão, sobrevivem as altas temperaturas dos motores e são liberados na atmosfera através dos gases de escape.

Moral da Nota: maiores concentrações foram medidas em regiões urbanas cujas  amostras coletadas na região metropolitana de São Paulo, no Brasil, atingiram 98 nanogramas/metro cúbico, em oposição a 0,9 nanogramas/metro cúbico em Rugsteliskis Lituânia, no entanto, amostras de ar em Cabauw, vila rural holandesa, concentrações chegaram a 2 nanogramas/metro cúbico fornecendo aos pesquisadores dados de climas diversos, hemisférios e regiões econômicas, incluindo economias desenvolvidas e emergentes. Pesquisadores afirmam que pessoas provavelmente os inalam continuamente por conta da presença dos metilsiloxanos em quase toda a atmosfera, desconhecendo-se efeitos dessa exposição na saúde a longo prazo, com o Dr Holzinger esclarecendo que  "embora a dose diária de inalação de metilsiloxanos possa exceder a de outros compostos sintéticos como PFAS, micro e nanoplásticos, há necessidade urgente de avaliação desses impactos na saúde." Por fim, alertam que esses produtos químicos podem influenciar o clima e processos atmosféricos alterando propriedades dos aerossóis que desempenham papel importante na formação de nuvens e comportamento do clima, por exemplo, esses compostos podem alterar a tensão superficial dos aerossóis afetando formação de nuvens, além de interferir na nucleação do gelo, importante nos processos de formação de nuvens atmosféricas. A conclusão que os metilsiloxanos se espalham pela atmosfera de modo semelhante aos hidrocarbonetos de cadeia longa  encontrados em óleos de motor, remete a padrões de dispersão correspondentes sugerindo que provêm da mesma fonte, curiosamente, hidrocarbonetos de cadeia longa diminuíram significativamente à medida que atravessavam a atmosfera e se diluíam, no entanto, os metilsiloxanos, permaneceram mais estáveis enquanto grandes quantidades continuaram persistir na atmosfera mesmo após o transporte a longas distâncias, daí, a estabilidade significa que os compostos provavelmente podem percorrer grandes distâncias pelo ar.

domingo, 2 de agosto de 2026

Recorde Mundial

Mais da metade da eletricidade da Califórnia em maio, segundo o Los Angeles Times, foi a partir da energia solar, recorde mundial, em marco que acreditam ser novidade global, conforme análise de dados federais, com o analista da Grid Status, grupo que monitora oferta e demanda de eletricidade nos EUA e mercados de energia, Abby Lestina, dizendo que “a Califórnia teve grande crescimento solar nos últimos 5 anos”, concluindo, “faz sentido que alcancem esse objetivo.” Pela primeira vez que se sabe, um sistema de energia em larga escala ultrapassa 50% de energia solar em 1 mês inteiro, valendo dizer que é o 2º recorde de poder estabelecido pelo estado recentemente, quer dizer, nos primeiros 5 meses de 2026, produziu mais eletricidade a partir da energia solar que o gás natural, segundo a Administração de Informação Energética dos EUA, e que, a queima de gás natural tem sido a principal fonte de eletricidade no estado há muito tempo podendo ser o 1º ano que solar supera o gás na matriz energética da Califórnia, com o detalhe que, superou o recorde em maio, mês  não muito quente nem muito frio, significando que há menos demanda permitindo que a energia solar atenda a parcela maior da necessidade energética. O crescimento do armazenamento de novas baterias no estado permite economizar solar quando está superabundante e usá-la quando o sol se põe, conforme Nicolas Fulghum, da Ember, dizendo que, “o armazenamento de baterias transformou o sistema de energia da Califórnia”, escreveu, “as baterias transferem grandes quantidades de energia solar do meio-dia ao pico da noite, permitindo nível de penetração solar no sistema.” A energia fornecida pelo armazenamento de baterias na Califórnia cresceu de 500 megawatts à 16 mil desde 2020, ao passo que a quantidade de solar produzida mais do que duplicou à medida que o estado construiu parques solares nos desertos e em outros locais incentivando proprietários instalar nos telhados e, como resultado, em 2026, tinha 23.400 megawatts de capacidade solar em larga escala ficando atrás do Texas, segundo a EIA, quer dizer, quando se adiciona telhados e outros painéis de pequena escala a Califórnia tinha mais que qualquer outro estado, ou, 43.500 MW. Jayme Ackemann, porta-voz da operadora de rede da Califórnia, esclarece que, “como aumentou a participação de energia solar/renovável na rede a cada ano, ao mesmo tempo que aumentamos o armazenamento de baterias, continuaremos ver recordes a cada primavera à medida que o fornecimento aumenta”. Vale salientar que a Califórnia não está nem perto do desenvolvimento renovável da China, considerando que os chineses construíram 7 vezes mais energia solar em 2025 que o total instalado pelo estado,no entanto, a diferença é que emissões de eletricidade da Califórnia estão diminuindo e, as da China, ainda não, já que o estado prosseguiu com a transição apesar dos esforços do governo federal em desacelerá-la. Sediada no Reino Unido e promotora de  energias renováveis, a Ember obteve dados dos relatórios mensais de energia da EIA, Administração de Informação Energética dos EUA, com o rastreador de eletricidade incluindo apenas energia produzida no estado, não inclui, por exemplo, importações  do Arizona e que a geração de energia solar abrange usinas solares de grande escala e sistemas fotovoltaicos em telhados. Por fim, o projeto eólico SunZia, Novo México, começou enviar em abril eletricidade à Califórnia, reduzindo necessidade de queimar gás natural para gerar eletricidade à noite, enquanto importações aumentaram a participação de solar na matriz, sendo que no verão há mais consumo de gás natural, comum, quando temperaturas atingem o pico. Em suma, a Califórnia produz eletricidade mais limpa e a quantidade produzida pelo gás natural que gera poluição e aquece o clima, diminuiu nos últimos anos e, segundo a legislação assinada em 2018, toda eletricidade da Califórnia deverá provir de fontes limpas até 2045.

No Peru, o Tribunal Constitucional ordenou suspensão de 5 pesticidas usados em alimentos, pós detectar falhas de controle e altos níveis de contaminação química, em decisão favorável à saúde pública e segurança alimentar nacional a 2ª Câmara do Tribunal Constitucional ordenou ao Serviço Nacional de Saúde Agrária, Senasa, suspensão temporária da venda, distribuição e utilização de produtos fitossanitários contendo clorpirifós, metomil, glifosato, imidaclopride e clotianidina, destinados à produção de alimentos à consumo doméstico. No Processo nº 03269-2023-PA/TC, o mais alto intérprete da Constituição declarou procedente a ação de amparo impetrada pela AACU, Associação de Consumidores e Usuários de Apurímac, e outras organizações da sociedade civil, reconhece que a supervisão e monitoramento insuficientes pelo Estado sobre uso dos agrotóxicos violam direitos fundamentais à saúde, vida, integridade, ao gozo de ambiente equilibrado e proteção do consumidor. Declarou existência de "estado de coisas inconstitucional", concluindo que a resposta do Estado aos riscos à saúde gerados por esses pesticidas é insuficiente, detalha descobertas baseadas no monitoramento oficial do Senasa e em relatos de cidadãos mostrando tendência crescente na contaminação química de vegetais, de 10,38% de amostras não conformes em 2017 à 38,83% em 2024. Alimentos como páprica, pimentão, pimenta amarela, tomate e aipo, tinham níveis de contaminação que excedem os LMRs, Limites Máximos de Resíduos, chegando em alguns casos a mais de 90% das amostras impróprias ao consumo humano, já, o monitoramento por cidadãos revelou que metade dos alimentos testados em mercados e supermercados não estava em conformidade com padrões de segurança alimentar e que a presença de substâncias químicas proibidas como o carbofurano e o metamidofós foi detectada em plantações destinadas ao consumo em massa. O Tribunal Constitucional conclui que a resposta do Estado aos riscos à saúde gerados por esses pesticidas é estruturalmente insuficiente, em voto divergente, o juiz Gustavo Gutiérrez Ticse destacou "duplo padrão inaceitável" no país, enquanto produtos agrícolas destinados à exportação cumprem rigorosos padrões internacionais de segurança, alimentos cultivados à consumo pelos peruanos apresentam altos níveis de toxicidade. Por fim, o Tribunal fundamentou a decisão no princípio da precaução, argumentando que o Estado tem dever especial de proteger a saúde pública e o ambiente, nesse sentido, determinou que é irrazoável transferir ao cidadão o ônus de demonstrar por meio de estudos dispendiosos riscos à saúde cuja fiscalização é de responsabilidade exclusiva das autoridades, enfatiza que o risco relatado não é mera conjectura, mas, probabilidade plausível apoiada por evidências científicas a respeito do perigo das 5 substâncias ativas suspensas que possuem efeitos neurotóxicos, potenciais impactos no desenvolvimento e alto risco à biodiversidade como toxicidade às abelhas. Em consequência, emitiu decretos obrigatórios de reavaliação técnica, o Senasa, com o Ministério do Desenvolvimento Agrário e Irrigação, Midagri, e o Ministério da Saúde, Minsa, dispõe de 90 dias úteis para realizar reavaliação técnica, científica e abrangente sobre permanência, restrição ou cancelamento definitivo de autorizações dessas substâncias, além de Plano interinstitucional, em que o Senasa, Midagri, Minsa, a Presidência do Conselho de Ministros, PCM, e governos locais devem implementar plano para garantir segurança alimentar no prazo de 180 dias úteis, a Rastreabilidade e laboratórios, deve incluir reforço da supervisão, acesso especializado, mecanismos de rastreabilidade na detecção de infratores e protocolos à recolha de alimentos contaminados e apoio aos agricultores para desenvolver programas de assistência técnica à promoção de práticas de manejo de pragas menos arriscadas incentivando pesquisa de alternativas ecológicas. A suspensão do uso dos pesticidas permanece em vigor até que o Estado conclua a reavaliação determinada e implemente mecanismos de controle eficaz que garanta que os alimentos nas mesas peruanas não representem mais um perigo à vida.

Moral da Nota: a enciclopédia Al-Hawi fi al-Tibb promoveu a medicina baseada na observação, Al-Hawi de Al-Razi, tradução latina, O Livro Completo da Medicina, do médico Abu Bakr Muhammad ibn Zakariya al-Razi, latinizado como Razes, está entre as grandes obras científicas da civilização islâmica, reune o conhecimento médico da  época enriquecendo com observações clínicas, experiências terapêuticas e análises críticas. Abu Bakr Muhammad ibn Zakariya al-Razi nasceu por volta do ano 865 na cidade de Rayy e mudou-se para Bagdá onde dirigiu um dos principais hospitais da era abássida,tinha como atividade científica medicina, filosofia, química e farmácia, é autor de mais de 200 obras, incluindo Al-Hawi, Al-Mansuri fi al-Tibb, Varíola e Sarampo e Para aqueles que não têm médico, faleceu em 925 deixando legado que influenciou o desenvolvimento da medicina. Sua tradução ao latim e subsequente disseminação na Europa contribuíram por séculos à formação médica e desenvolvimento de prática baseada na observação, experimentação e análise crítica, permanecendo testemunho do florescimento do pensamento científico na civilização árabe-islâmica e uma das obras fundamentais na história da medicina experimental. Uma das referências médicas no Oriente e Ocidente auxiliando consolidar Al-Razi como um dos mais influentes na história da medicina, em “Obras Mestras” dedica a análise de trabalho cuja metodologia baseada na observação, comparação e experimentação, marca etapa decisiva no desenvolvimento do pensamento médico, sendo Al-Hawi considerada a obra mais extensa e célebre de Al-Razi, enquanto trabalhava em hospitais em Rayy e Bagdá onde reuniu conhecimento das tradições médicas grega, indiana e árabe, acrescentando  observações clínicas e experiência no diagnóstico e tratamento de doenças. Observam os historiadores da medicina que a obra não atingiu sua forma final durante a vida de Al-Razi, pois faleceu antes de revisá-la e organizá-la completamente e, seus alunos, posteriormente compilaram e organizaram suas anotações transformando-as em uma das maiores enciclopédias médicas da história, sendo que a singularidade de Al-Hawi reside no fato de ter ido além da mera transmissão de conhecimento e adotado abordagem na observação direta e experimentação, não se limitou reproduzir opiniões dos médicos que o precederam, as examinou, comparou-as com suas experiências e documentou a evolução diária de casos clínicos, registrando resultados favoráveis ​​ou negativos dos tratamentos aplicados. A obra contém observações sobre doenças do sistema respiratório, digestivo e nervoso, descrições de feridas, fraturas e abscessos, aborda medicamentos, suas propriedades e métodos de administração, utiliza metodologia semelhante à que hoje conhecemos como documentação clínica, dentre as contribuições científicas mais notáveis ​​de Al-Razi, destaca-se a diferenciação entre varíola e sarampo, avanço que mudou a compreensão das doenças epidêmicas do qual médicos europeus se beneficiaram posteriormente. Por fim, a obra foi impressa pela 1ª vez em Brescia, Itália, em 1486, tornando-se um dos primeiros livros de medicina publicados na Europa pós disseminação da imprensa no século XVI e  reimpressa diversas vezes em Veneza, com universidades europeias utilizando-a como referência ao ensino da medicina até o século XVII, além de fazer parte do currículo da Faculdade de Medicina da Universidade de Paris por anos, refletindo influência no desenvolvimento da medicina europeia. Reem Al-Kamali, escritora, descreveu Al-Hawi, em artigo publicado Al-Bayan como projeto científico que ocupou grande parte da vida da autora, sendo que o registro de observações clínicas e análises fez da obra testemunho do desenvolvimento da medicina experimental na civilização árabe-islâmica e referência por séculos. Nenhum manuscrito original completo escrito por Al-Razi foi preservado, embora cópias de Al-Hawi ultrapassem 10 mil páginas, sendo que o exemplar mais antigo conhecido data de 1094, guardado na Biblioteca Nacional de Medicina dos EUA, além de exemplares na Biblioteca Bodleiana da Universidade de Oxford e outras instituições internacionais.