quarta-feira, 23 de setembro de 2026

Degelo

Pesquisas em dados que remontam à década de 1970 documentaram perdas de gelo polar na Groenlândia e Antártida, lar das 2 grandes camadas de gelo da Terra que contribuíram entre 1979 e 2023 ao aumento do nível global do mar, dados de 27 missões de satélite mostram perda de 11,3 bilhões de toneladas de gelo acrescentando 3,14 cm à subida do nível do mar. A pesquisa usou o mais longo registro de dados de satélite de mudanças nas camadas de gelo já coletado, para fornecer relato completo da perda de gelo na Groenlândia e Antártida e conduzida pela equipe do Exercício de Intercomparação do Balanço de Massa das Camadas de Gelo, grupo internacional de cientistas polares e, segundo eles, oferecem evidências dos efeitos das alterações climáticas globais causadas pelo homem. A cientista Inês Otosaka, Universidade de Northumbria, Inglaterra, autora do estudo publicado na Scientific Data, disse que, "para colocar número tão grande em contexto, 11,3 trilhões de toneladas de gelo, suficiente para preencher um cubo de 23 km de altura", conclui que, "quando as camadas de gelo derretem, contribuem à subida do nível do mar e, a cada cm adicional de elevação do nível do mar, 2 a 3 milhões de pessoas correm risco de inundações costeiras anuais e, as camadas de gelo, são um dos principais impulsionadores da subida do nível do mar representando 25% da elevação marítima". Explica que da perda de gelo documentada no estudo, 60%, veio da Groenlândia e, 40%, da Antártida, embora a Groenlândia tenha um oitavo do tamanho da Antártida, diz ainda que, "estendemos o registro de dados de satélite no tempo até a década de 1970, confirmando que perdas de gelo começaram na década de 1990 e aumentaram desde então, a avaliação mostra que o ritmo de perda de gelo aumentou por 1 fator de 4 entre as décadas de 1980 e 2010". Documentou ainda desaceleração na perda de gelo entre 2020 e 2023, embora cientistas  tenham dito que parece representar variação de curto prazo e não inversão da tendência de longo prazo, dizendo que a queda de neve alta na Antártida Oriental forneceu gelo para compensar perdas de geleiras em outras partes, enquanto verões  amenos na Groenlândia reduziram o derretimento da superfície, quer dizer, 84% do gelo perdido veio de geleiras que fluem mais rapidamente ao oceano que derretimento do gelo na superfície, mostrando que a tendência de longo prazo é impulsionada pela resposta das camadas de gelo ao aquecimento do oceano. Por fim, nos dizem que o aumento do nível do mar às perdas de gelo na Groenlândia e Antártida pode não parecer enorme, mas, coloca outras 6 a 9 milhões de pessoas em risco de inundações e erosão costeira no mundo e, conclui, "implica no planejamento costeiro, mostra que precisamos desenvolver planos para proteger comunidades costeiras no mundo do derretimento das camadas de gelo".

IA refina previsões, mas, continua consumindo muita água e energia com cientistas concordando com a necessidade de uso responsável alertando à importância de  instituições públicas manterem controle sobre modelos, considerando o verão europeu marcado por manifestações climáticas a IA pode nos ajudar combater desastres, com o climatologista, Freddy Bouchet, responsável pela área IA no Instituto Pierre-Simon-Laplace, IPSL, se apressando em moderar expectativas na vanguarda da transição ecológica, ao dizer que, “do ponto de vista de combate às emissões de gases efeito estufa, IA é detalhe menor”, ​​afirma, e defende, “conhecemos soluções e não é IA que vai nos incentivar consumir menos combustíveis fósseis, implementar transportes de baixo carbono ou reformar edifícios”, acrescenta. Embora não devamos esperar que a tecnologia substitua política ou seres humanos, o cientista enxerga como ferramenta "para melhor compreensão de fenômenos climáticos", com Pierre Gentine, Universidade Columbia, EUA, reconhecido por trabalho em IA e modelagem climática, dizendo que, "normalmente, dizemos com maior precisão se estamos caminhando ao aquecimento de 2°C ou 1,5 °C , dependendo dos cenários de emissão de gases efeito estufa". Por fim, Freddy Bouchet, que publicou artigo na Physical Review Letters, mostra que combinar IA com modelos meteorológicos tradicionais permite melhor previsão de ondas de calor ou mega incêndios, como do verão findo europeu, dizendo que, "IA trará benefícios para entender, prever e nos adaptar".

Moral da Nota: Henry M. Paulson Jr, do Instituto Paulson, disse que “o mundo natural que vivemos é fascinante, não acredito que alguém de nós queira um planeta que seja um deserto solitário”, já, Tom Lovejoy, o “Padrinho da Biodiversidade”, disse que a 5 anos, alertou que caminhávamos sonâmbulos à crise ao subestimarmos a natureza e, nesse processo, minamos a estabilidade ecológica e ameaçamos segurança, saúde e economia, agora, a crise se agrava e, apesar da conscientização da ameaça existencial nos encontramos meio despertos e perigosamente perto de um precipício. O relatório "Financiando a Natureza", em 2020, mostra que a biodiversidade continua desaparecer a ritmo alarmante e análise da PwC revela que mais da metade do PIB global depende moderadamente ou fortemente da natureza, no mundo, 48% das espécies estão em declínio e, em grande parte, devido à perda de habitat, populações de vertebrados diminuíram em 73% desde 1970 e, se continuarmos nessa trajetória, corremos risco de perder metade das espécies ainda no século XXI. A Amazônia nos aproxima do ponto de inflexão em que mudanças hidrológicas pelo desmatamento podem secar milhões de hectares de floresta tropical e, alterar o clima amazônico, resulta em custos econômicos exorbitantes, na América do Norte, o continente mais rico do mundo, perdemos mais da metade das pastagens, ecossistema mais ameaçado. A degradação da natureza representa ameaça à economia, setores da agricultura, o turismo e a saúde em que perda de polinizadores como abelhas, borboletas e outros insetos causam quebras de safra em mais de US$ 215 bilhões, quando manguezais são destruídos comunidades perdem proteção natural tornando tempestades e inundações mais danosas e custosas, com especialistas nos avisando que, sem manguezais, 39% a mais de pessoas sofreriam com inundações anualmente afetando 18 milhões a mais no mundo. Os custos reais da perda de biodiversidade são difíceis de quantificar, os riscos sistêmicos vão além do que é mensurável com estudos sobre impacto de mudanças climáticas mostrando que sabemos significativamente menos sobre a ciência da perda de biodiversidade e seus impactos. A energia solar, com drástica redução de custos é divisor de águas, no entanto, parques solares causam danos ecológicos quando mal localizados, destóem milhões de hectares de pradarias e florestas nativas, nos EUA, incentivo à energia solar na Virgínia levará ao desmatamento de 30 mil acres/ano. Por fim, antes da COP17 sobre Biodiversidade na Armênia, o Instituto Paulson lançará  atualização do relatório 'Financiando a Natureza', essencial, que a rápida extinção de espécies e a destruição do capital natural sejam reconhecidas como uma das crises globais mais urgentes e plenamente integradas às políticas e planejamento climático.

terça-feira, 22 de setembro de 2026

No Leite

Pesquisas na Índia reforçam evidências que apontam à contaminação por plástico proveniente das embalagens de leite, embora o leite indiano seja um dos alimentos mais confiáveis ​​no dia a dia, a pesquisa sugere que pode ser via inesperada pela qual microplásticos entram no organismo. Publicado no Journal of Food Composition and Analysis a pesquisa analisou microplásticos no leite da vaca cru embalado comercialmente e leite de vaca cru de origem local indiana, com pesquisadores encontrando 66 partículas em 9 amostras em concentrações que variavam de 3 a 30 partículas/litro, sendo que eram fibras ou fragmentos e, análises laboratoriais, evidenciam polietileno e polipropileno, 2 plásticos utilizados em embalagens como polímeros predominantes e cientistas afirmam que a interação com embalagens de alimentos era provável via de contaminação embora estivessem presentes no leite cru. Evidências publicadas no início de 2026 apontam às embalagens como causadoras do problema, considerando estudo de janeiro publicado no Food and Chemical Toxicology e conduzido por pesquisadores da Universidade Nacional de Ciências Forenses de Gujarat, analisou 6 marcas de leite embalado consumidas, bem como, leite fresco de fazenda, sendo que o leite de fazenda continha 17,8 partículas de microplástico por litro enquanto amostras de leite embalado variaram de 37,8 a 71,1 partículas por litro, quer dizer, até 4 vezes o nível encontrado no leite fresco. Segundo o estudo, o polietileno de baixa densidade comumente usado em embalagens de leite foi plástico predominante nas amostras embaladas, com cientistas dizendo que plásticos entrariam no leite em etapas incluindo sacos de ração, equipamentos de ordenha, filtros e ferramentas de processamento, com as embalagens adicionando ainda mais contaminação, preocupando pesquisadores da área da saúde ao dizerem que não é simples ingestão dessas partículas, mas, o que a exposição repetida ao longo de anos potencialmente causaria no organismo, com especialistas afirmando que pesquisas sobre consequências à saúde humana ainda estão em desenvolvimento e a detecção de microplásticos em alimentos não significa que o consumo de determinada quantidade de leite cause doenças. Estudos laboratoriais e com animais associaram exposição a microplásticos com inflamação, estresse oxidativo, lesões teciduais e disrupção de processos celulares normais, com revisão sistemática publicada no Environmental Science & Technology concluindo que microplásticos são suspeitos a prejudicar saúde digestiva, reprodutiva e respiratória direcionando à efeitos como inflamação intestinal crônica, alterações na resposta imunológica, comprometimento da qualidade do esperma e alterações nos hormônios reprodutivos. Vale a nota que microplásticos foram detectados no sangue, fígado, cólon, sêmen e leite materno humanos, sugerindo que partículas podem ultrapassar o trato digestivo, no entanto, cientistas se interessam particularmente por nanoplásticos, menores, considerando que seu tamanho diminuto facilitaria travessia de barreiras biológicas e interação com tecidos, já que, estudos investigam se exposição crônica contribui à doenças cardiovasculares e metabólicas, embora, especialistas ressaltem que a relação de causa e efeito em humanos, ou, nexo de causalidade, não foi definitivamente estabelecida. Por fim, o estudo de Gujarat, Índia, estima ingestão diária de microplásticos maior oriunda do leite embalado que do leite fresco da fazenda e observa que bebês podem estar sujeitos a exposição proporcionalmente maior.

Cientistas da Universidade de Tabriz, Irã, examinaram amostras de leite compradas em supermercados de Teerã encontrando partículas de microplástico em todas elas, em concentrações que variaram de 5 a 36 partículas/litro, com média de 18,4 partículas por litro. Publicada na Current Research in Food Science, intitulado 'Contaminação por microplásticos em leite comercial, quantificação e identificação de polímeros utilizando MEV-EDS e espectroscopia micro-Raman', o estudo liderado por Nazanin Jabbarzadeh e cols, adiciona o leite, alimento consumido diariamente por bilhões de pessoas, à crescente lista de produtos que carregam partículas microscópicas de plástico apontando à parte específica da cadeia de suprimentos de laticínios, ou, a embalagem. Processaram amostras por lote, expuseram filtros ao ar do laboratório em cada sessão de filtração, pré-filtraram reagentes através de membranas de 0,45 micrômetros e usaram jalecos de algodão e luvas de nitrilo em cabine de fluxo laminar minimizando contaminação por partículas suspensas no ar. As amostras em branco apresentaram uma média de 1,2 partículas por filtro e as amostras em branco para contaminação por partículas em suspensão no ar, 0,6, resultando em limite de detecção de 3,6 partículas por filtro, abaixo da menor concentração de amostra registrada. Cada amostra de um litro de leite digerida com peróxido de hidrogênio a 30% a 60º C por 24 horas foi filtrada a vácuo com filtros de fibra de vidro de 1,2 micrômetros, com pesquisadores adicionando quantidades conhecidas de partículas de microplástico padrão à água ultrapura e processando-as exatamente como as amostras, obtendo como taxas de recuperação que variaram de 82% ao tereftalato de polietileno a 96% ao polietileno, com média geral de 89%, corrigindo concentrações com fatores de recuperação específicos à cada polímero, ressaltando que, como as adições foram feitas em água em vez de leite, os valores de recuperação não representam validação completa do método à matriz láctea em si. Microscópica estereoscópica em ampliações de 40 e 100 vezes registrou 551 partículas nas amostras e o material coletado foi dominado por fragmentos que representaram 58% do total seguidos por fibras com 35% e esferas com 7%, fibras em maioria azuis ou transparentes, enquanto fragmentos tinham  paleta ampla, incluindo preto e vermelho. A composição química, 150 partículas, 5 por amostra, foram submetidas à microscopia eletrônica de varredura acoplada à espectroscopia de raios X por dispersão de energia, MEV-EDS, revelando texturas superficiais e perfis elementares, partícula de polietersulfona, por exemplo, apresentou pico característico de enxofre no espectro EDS, enquanto partículas de polietileno eram dominadas por carbono, além disso, analisadas por espectroscopia micro-Raman usando laser de 785 nanômetros com espectros comparados a bibliotecas de referência e padrões personalizados de 7 polímeros comuns. Dito isto, o polietileno emergiu como polímero mais abundante, 32% das partículas identificadas, seguido pelo polipropileno com 24%, PET com 15%, poliamida com 12% e polietersulfona com 9% e, 8% restantes não identificados ou de outra natureza, aqui, o detalhe, o polietileno e o polipropileno são polímeros mais comuns em garrafas plásticas de leite e materiais em contato com alimentos, enquanto poliamida e PET são característicos dos laminados da Tetra Pak, um alerta dos autores, identificação do polímero por si não determina origem de cada partícula. Por fim, o ponto central da pesquisa do ponto de vista estatístico é a comparação das embalagens em que o leite de garrafas plásticas continha, em média, 24,6 partículas/litro, o dobro das 12,2 partículas/litro encontradas em embalagens da Tetra Pak, cartonadas, quer dizer, diferença significativa e, em modelo de regressão linear múltipla, o tipo de embalagem foi o único preditor de contaminação, quase metade da variância nas concentrações enquanto o teor de gordura e a marca não apresentaram efeitos significativos, daí, o estudo estabelece associação com a embalagem e não comprova que garrafas sejam a fonte direta das partículas. Enfim, partículas menores de microplásticos são consideradas mais capazes de atravessar barreiras biológicas e serem absorvidas pelas células e 72% das partículas medidas tinham menos de 100 micrômetros e 41% menos de 50 e apesar dos autores enfatizarem que o estudo mede características de partículas e não absorção, distribuição nos tecidos ou quaisquer efeitos toxicológicos, ressaltam que nenhuma conclusão sobre riscos à saúde pode ser extraída apenas com base nesses dados e que o consumo de leite não deve ser considerado risco comprovado à saúde com base nessas evidências. Concluindo, a maioria dos dados sobre microplásticos em alimentos provém da Europa, Américas e Leste Asiático, enquanto regiões como o Irã foram pouco abordadas, apesar de relatos anteriores de microplásticos em leite, leite em pó e fórmulas infantis, quer dizer, a presença de microplásticos em leite comercial foi documentada e embalagens plásticas apresentam associação forte sendo que o significado científico à saúde humana é questão aberta e urgente. 

Moral da Nota: especialistas da Universidade de Minnesota, produziram pesquisa que detalha como poluição por microplásticos impacta saúde humana, animal e ambiental e devido aos diversos tipos de plásticos produzidos no mundo, são encontrados universalmente nos oceanos, solo, água doce e ar, paisagens e ecossistemas, difíceis de se decompor fazendo com que acumulem nos oceanos, solo, ar e cadeia alimentar. A pesquisa foi no Lago Superior um dos primeiros corpos de água doce do mundo a ser estudado quanto à presença de microplásticos, desde então, poluentes particulados foram encontrados em outros lagos de Minnesota, bem como, rios, sedimentos e peixes  descobertos na remota Reserva Natural Boundary Waters Canoe Area Wilderness. Sua presença na água, solo e ar permite absorção pelos menores membros da cadeia alimentar, cadeia da qual humanos fazem parte e dependem, essas partículas podem capturar e concentrar poluentes químicos, metais pesados ​​e microrganismos nocivos do  ambiente, contêm aditivos químicos que migra das partículas aos organismos, embora, ainda não saibamos a dose letal dos microplásticos, há evidências que sua presença representa impacto negativo na saúde e resiliência ecológica. Podem atravessar barreiras biológicas, serem absorvidos pelas plantas e, quando consumidos por animais e humanos, são absorvidos pela corrente sanguínea e se acumularem nos órgãos do corpo, como resultado, contribuir à efeitos adversos à saúde como distúrbios digestivos, risco de problemas cardiovasculares, distúrbios hormonais e reprodutivos e riscos ao desenvolvimento em humanos, em animais, reduz capacidade digestiva, inflamação dos tecidos, disrupção hormonal e fertilidade associadas ao acúmulo de microplásticos e nanoplásticos. Por fim, a pesquisa da Universidade de Minnesota analisou amostras ambientais coletadas no estado, água bruta, água da torneira e esgoto coletadas em fontes de Minnesota, ar ambiente, chuva e neve coletadas no telhado do campus em Minneapolis, produtos de consumo e liberação de microplásticos de filtros de água, escovas de dente, gelo de plástico e garrafas de água, cervejas regionais e sais de mesa importados e comprados no estado, concluindo que, poluição plástica é questão tanto local quanto global.