quinta-feira, 2 de julho de 2026

Ondas de Calor

O climatologista francês Christophe Cassou, em entrevista à AFP, esclarece que  ondas de calor que ocorrem em fins da primavera e início do verão correm risco de produzir efeitos mais extensos que as ondas clássicas de julho e agosto, chamando a atenção ao fato de temperaturas elevadas como as registradas na Europa Ocidental no fim de Maio demonstraram mais uma vez vulnerabilidade da sociedade e ecossistemas às alterações climáticas. Diretor de pesquisa do CNRS, Centro Nacional Francês de Pesquisa Científica, um dos autores do próximo relatório do IPCC, acredita que o impacto dos episódios iniciais pode ser maior que o de ondas de calor mais intensas produzidas no meio do verão e, segundo o climatologista, o motivo é que tais episódios ocorrem em período que a atividade econômica está em plena capacidade e a maior parte da população não está de férias. Esclarece que, "as pessoas estão trabalhando diretamente expostas às altas temperaturas", explicou, além disso, os efeitos econômicos são consideráveis, já que, temperaturas extremas reduzem produtividade, especialmente construção, agricultura, indústria e campos, realizados ao ar livre ou em espaços insuficientemente climatizados". Alerta que o final da primavera representa um dos períodos mais sensíveis do ciclo biológico das plantas e animais, nesta fase, ocorre intenso desenvolvimento da vegetação com frutas e culturas agrícolas em processo de formação, daí, temperaturas excessivas e falta de água afetam as culturas antes que atinjam a maturidade, quer dizer, "estamos em momento sensível do ciclo fenológico, com o crescimento das plantas no auge e os frutos que serão colhidos no verão estão na fase de formação", explicou. Espécies marinhas como mexilhões, ostras ou caracóis, são afetadas pelo rápido aquecimento do mar enquanto espécies de aves passam pelo período de reprodução e criação dos filhotes que as torna particularmente vulneráveis, chama atenção a aceleração da secagem do solo e, conforme dados fornecidos pela Meteo-France, em fins de maio de 2026 os solos na França estavam entre os 10% mais secos registrados neste período do ano, com demanda por água alta no desenvolvimento das culturas e déficits de umidade podendo afetar a produção agrícola. Por fim, o centista alerta que as sociedades europeias continuam reagir aos efeitos que já ocorreram e não antecipar fenômenos futuros, quer dizer, "estamos na lógica de gestão de crises, correndo atrás dos efeitos das mudanças climáticas e não preparando suficientemente a sociedade ao que está por vir", acredita que adaptação deve partir de cenários extremos, incluindo possibilidade de temperaturas de 50 ºC nas principais cidades europeias seguidas de medidas à reduzir vulnerabilidades. Para o climatologista o grande desafio não é apenas reduzir emissões de gases efeito estufa, mas, preparar as sociedades à que temperaturas extremas ocorram com frequência afetando simultanemente saúde da população, agricultura, economia e ecossistemas naturais.

Neste contexto, estudo alerta que ondas de calor extremas estão atingindo níveis de estresse térmico incompatíveis com a sobrevivência humana, com cientistas concluindo que as ondas de calor são mais letais que se estimava e pedem novas estratégias de adaptação urbana. O calor extremo está matando mais pessoas que as estatísticas indicam, quer dizer, um novo estudo alerta ao verdadeiro risco das ondas de calor que se tornaram ameaças climáticas mais mortais no século XXI, no entanto, a maioria dos sistemas de alerta, planos de emergência e estatísticas podem subestimar seu  impacto na saúde humana. Pesquisa liderada pela Universidade Estadual do Arizona analisou eventos de calor extremo mais severos entre 2003 e 2024 e descobriram realidade incômoda, ou, muitas das condições consideradas "suportáveis" pelos modelos tradicionais podem ser letais à milhões de pessoas, já que, durante décadas, grande parte da avaliação de riscos foi baseada na temperatura do ar, no entanto, o corpo humano não percebe apenas a temperatura mostrada no termômetro, daí, umidade, radiação solar, velocidade do vento, duração da exposição e roupas, influenciam a capacidade do corpo de dissipar calor. Daí, a premissa que, 2 lugares com a mesma temperatura podem apresentar níveis de perigo diferentes, por essa razão, utilizaram modelo fisiológico mais avançado que incorpora capacidade real do corpo humano de transpirar e se resfriar, sendo que o resultado surpreende, ou, tanto ambientes úmidos quanto extremamente secos podem atingir níveis incompatíveis com a sobrevivência, desafiando conceitos aceitos sobre limites fisiológicos dos seres humanos diante o calor extremo. Um dos aspectos mais preocupantes identificados pelos pesquisadores é o aumento das temperaturas noturnas, já que, as noites ofereciam período de recuperação pós horas mais quentes durante o dia, hoje, em muitas áreas urbanas, esse alívio térmico desaparece e as cidades acumulam calor no asfalto, nos edifícios e em outras superfícies impermeáveis em fenômeno conhecido como ilha de calor urbana, que faz com que as temperaturas noturnas não caiam e, como resultado, o corpo humano não se recupera adequadamente do estresse térmico acumulado durante o dia e, a combinação de mudanças climáticas e expansão urbana, intensifica o problema em áreas metropolitanas da Europa, América Latina, Oriente Médio e Ásia. Por fim, o estudo confirma algo que os profissionais de saúde observam há anos, ou, o calor não afeta todas as pessoas do mesmo modo, com o passar dos anos, o corpo perde parte da capacidade de regular a temperatura corporal e a produção de suor diminui, a circulação sanguínea torna-se menos eficiente e a sensação de sede pode diminuir, por essa razão, condições que a pessoa jovem suporta por algumas horas podem se tornar crítica para alguém com mais de 65 anos, piorando por problemas cardiovasculares, renais, diabetes ou medicamentos que alteram a regulação térmica. Cidades como Barcelona, ​​Paris, Singapura e Medellín desenvolvem estratégias para reduzir a exposição dos habitantes ao calor extremo, sendo que o planejamento urbano sustentável e a expansão das renováveis ​​estão surgindo como ferramentas para romper essa dinâmica, focadas no perigo das ondas de calor, vulnerabilidade dos idosos, noites tropicais mais frequentes, ilhas de calor urbanas, subnotificação das mortes relacionadas ao calor, avanço das mudanças climáticas e necessidade de sombreamento urbano e adaptação climática como prioridades urgentes.

Moral da Nota: o calor combinado a poluição do ar é emergência de saúde que requer novas abordagens médica, com estações de calor se prolongando e intensificando, em Lahore, Paquistão, por exemplo, 46°C em junho fica ainda mais quente pela umidade urbana, com Muskan Fatima, do corpo docente da Faculdade de Medicina e Odontologia Rahbar, Paquistão, dizendo que pacientes podem chegar sentindo-se fracos, letárgicos e doloridos, pele úmida ou febre e que “pacientes com exaustão pelo calor são comuns aqui”. São mencionadas deficiências de vitaminas e “quando investigado o histórico mostra longas horas de trabalho em cozinhas sob o sol ou em fábricas próximas de fontes de calor” e, além do calor e umidade, Lahore sofre com altos níveis de poluição do tráfego, indústrias e queimadas agrícolas, com migrantes de áreas rurais do Paquistão especialmente sensíveis à poeira urbana e, conclui, desenvolvem bronquite, asma ou falta de ar, mais frequente devido as condições preexistentes. Embora o ar-condicionado seja essencial há muito tempo às unidades de saúde onde  trabalhou, outras regiões são mais novas nos desafios de manter condições de trabalho seguras, com OMS e OMM destacando em relatório a proteção de trabalhadores contra estresse térmico, com Médicos no mundo descobrindo necessidade de estarem preparados às consequências do calor e poluição à saúde, agora, observadas fora dos países tradicionalmente mais quentes. Annette Peters, do Instituto de Epidemiologia do Centro Alemão de Pesquisa em Saúde Ambiental, diz que, os poluentes como o CO2 e metano retêm calor próximo da superfície da Terra, embora o dióxido de enxofre, SO2, tenha efeito de resfriamento, o carbono negro, fuligem, aquece o planeta ao absorver a radiação solar e, no calor extremo, produzem Ozônio troposférico, por exemplo, a poluição por Ozônio se associa a ataques de asma mais frequentes e mortes por causas respiratórias. Lorna Powell, médica de pronto-socorro em Londres, esclarece que, crianças respiram mais rápido em climas quentes para tentar se manterem frescas, se a asma desencadear em ambiente poluído terão mais dificuldade, ao passo que poluição do ar se associa a frequências cardíacas e pressão arterial mais altas, torna mais vulneráveis ao calor pessoas expostas, considerando que, temperaturas corporais mais altas agravam danos causados ​​por poluentes e, em climas quentes, a pele fica mais permeável permitindo absorção mais fácil, daí, alergenos são mais abundantes e intensos quando o calor e poluição do ar coexistem. Para concluir, a ventilação inadequada limita a capacidade das famílias movimentar o ar frio para dentro ou o ar poluído para fora, seja ar poluído de ambientes internos ou externos, as instalações médicas também são afetadas, na Noruega, onda de calor longa que, segundo médicos, é pelo menos 10 vezes mais provável hoje devido às mudanças climáticas, em julho de 2025, levou ao aumento de internações hospitalares e à dificuldade de manter prédios refrigerados, cancelando cirurgias por 2 semanas de onda de calor, nas salas de parto, parturientes foram encaminhadas para outros hospitais. Associado a poluição do ar, o estresse por calor afeta cognição e, na onda de calor norueguesa, os "enfermeiros estavam preocupados por terem que trabalhar em condições muito quentes e serem responsáveis ​​pela saúde e vida das pessoas, com Amalie Skalevag, cientista climática do Instituto Meteorológico Norueguês, concluindo que, "é desafiador tomar decisões críticas nessas condições de trabalho".

segunda-feira, 29 de junho de 2026

OMS

O chefe do escritório da OMS na Turquia esclarece que a organização foca ligação entre crise climática e saúde humana na COP31, em que saúde é argumento forte e tangível à ação climática porque se experimentam mudanças através do impacto em vidas, bem-estar e comunidades e "criar plataforma à Turquia mostrando experiência e liderança no avanço de abordagens que conectem resiliência climática, sistemas de saúde, segurança hídrica, sustentabilidade ambiental e preparação para emergências". A COP31 oferece oportunidade à fortalecer vínculo entre clima e saúde nas discussões globais, acrescentando que a realização da conferência pela Turquia auxiliaria  sublinhar o papel da ação climática na salvaguarda da saúde e comunidades, disse ainda que, as alterações climáticas não eram apenas desafio ambiental, mas crise de saúde pública que já afeta a saúde humana no mundo e que os impactos das alterações  tornam-se cada vez mais decisivos ao futuro fardo das doenças, segurança sanitária e resiliência dos sistemas sanitários, acrescentando que, efeitos podem surgir direta e indiretamente. Descreveu que a meta de 1,5°C do Acordo de Paris é limite crítico à saúde pública, alertando que ultrapassá-la teria consequências significativas, esclarecendo que, "se o aquecimento global exceder 1,5ºC, é provável que vejamos eventos climáticos extremos mais frequentes e severos, aumento da mortalidade relacionada ao calor, aumento da pressão sobre sistemas alimentares e água e maiores riscos de surtos de doenças e deslocamento, sendo que os impactos na saúde serão significativos às populações vulneráveis, incluindo idosos, crianças, pessoas com doenças crônicas e comunidades que já enfrentam desafios sociais ou econômicos". Explica que podem surgir restrições de capacidade hospitalar e serviços de saúde de emergência nos fenômenos meteorológicos extremos, com potenciais problemas nas cadeias de abastecimento, danos na infra-estrutura e interrupções no acesso à electricidade e água, aumentando necessidades de cuidados imediatos a longo prazo, além de obrigação de sistemas de saúde responderem não só emergências, mas impactos secundários, incluindo, doenças infecciosas e relacionadas à poluição, condições de saúde mental e agravamento de doenças crônicas. Por fim, concluiu que há espaço para elevar mais a saúde no âmbito das negociações climáticas e quadros de implementação, considerando que saúde é um dos argumentos mais fortes e tangíveis à ação climática porque se experimenta primeiro mudanças climáticas através do impacto nas vidas, bem-estar e comunidades.

A organização de direitos humanos Médico International e a rede alemã “Coordination gegen Bayer-Gefahren”, ou, Coordenação contra os Perigos da Bayer, CBG, relatam que o glifosato e o fósforo branco usados ​​pelas forças israelenses no Líbano são  presumivelmente de origem alemã, quando em fevereiro de 2026 surgiram relatos   alegando que o exército israelense utilizou o herbicida glifosato no sul do Líbano e Síria. O Ministério da Agricultura do Líbano, avisa que concentrações de glifosato em amostras coletadas na região excederam níveis normais em 20 a 30 vezes, ao passo que o presidente do Líbano, Josef Aoun, descreveu a situação como "crimes ambientais e de saúde", no entanto, o incidente é particularmente relevante à Alemanha, já que a Monsanto, fabricante de glifosato sediada nos EUA, adquirida em 2018 pela Bayer e uma das maiores corporações químicas do mundo. Vale a nota que, não apenas a grande mídia alemã abordou o assunto, apesar da relutância em noticiar crimes de guerra de Israel com o tema chegando ao Bundestag alemão com pouca indignação pública, ao passo que a organização de direitos humanos Medico International publicou relatório “Cartografias da Destruição, A Guerra de Israel contra o Líbano”, em cooperação com a libanesa “Obras Públicas”, sendo que o relatório, além dos crimes de guerra, documenta uso de fósforo branco por Israel no Líbano e, segundo o relatório, também oriunda da Monsanto. Jan Pehrke, da CBG, esclareceu  que “há indícios que o fósforo usado na guerra do Oriente Médio vem da fábrica de glifosato da Bayer em Soda Springs EUA", embora se saiba há muito tempo Israel usa fósforo branco em suas guerras contra Gaza e Líbano, mas, o suposto uso de glifosato é alegação recente, com Riad Othman, diretor da Medico International no Oriente Médio, observa que o herbicida cancerígeno já havia sido “testado” pelos militares israelenses na Faixa de Gaza em 2014. Vale a nota que na Assembléia de Acionistas da Bayer em abril de 2026, o Conselho Executivo negou ter fornecido glifosato diretamente aos israelenses ou americanos, contudo, não emitiu negação correspondente em relação ao fósforo branco, já que no início de 2026, o presidente dos EUA, classificou o fósforo elementar na produção tanto do fósforo branco quanto do glifosato como essencial à “segurança nacional” norte americana. Em suma, a decisão ocorreu 2 semanas pós relatos do uso de glifosato no Líbano e Síria e pouco antes do ataque conjunto EUA-Israel ao Irã, na qual o fósforo branco também teria sido usado.

Moral da Nota: relatório da UNICEF que mapeia exposição infantil a riscos climáticos sobrepostos revela que quase metade das crianças do mundo, 1,1 bilhão, enfrentam pelo menos 3 ameaças simultaneamente por conta de terem que atravessar rios a nado e destruição da passarela por enchentes em 2012 e 10 anos depois não foi reconstruída, sendo que nas monções, "as fortes correntes, árvores mortas e detritos bloqueiam  rios, causam ferimentos e mortes” além da perda de livros, mochilas e roupas”. Constata que as 2,3 bilhões de crianças vivas atualmente expostas a pelo menos um risco climático que variam de inundações, secas e tempestades tropicais a ondas de calor, calor extremo, incêndios florestais, tempestades de areia e poeira, além de  1,1 bilhão de crianças, quase metade da população infantil mundial enfrenta 3 ou mais riscos simultâneos e, mais de 4 milhões, estão expostas a até 6 riscos. Tom Slaymaker, que lidera a unidade de dados sobre água, clima e ambiente do UNICEF, nos fala que “ter que atravessar a nado rio conhecido pelas correntes e crocodilos, só para chegar à escola”, “às crianças, o impacto das mudanças climáticas não é preocupação abstrata ou futura, é realidade que as leva arriscar suas vidas para não perderem aulas.” O UNICEF à mapear onde e com que intensidade os riscos convergem, utilizou um novo Banco de Dados Global de Riscos à Crianças que identifica exposição em grade de até 100 metros e, monitora 8 riscos climáticos, ou, inundações fluviais e costeiras, secas, tempestades tropicais, ondas de calor, calor extremo, incêndios, tempestades de areia e poeira, acrescentando ainda 2 crises de saúde agravadas pelo aquecimento global, ou, malária e poluição do ar. Avaliações sucessivas da UNICEF, baseadas em dados mais detalhados, mostram que a ameaça climática às crianças torna-se mais crítica à medida que é mais compreendida, sendo que a 1ª análise da agência, o Índice de Risco Climático Infantil de 2021, identificou 1 bilhão de crianças em risco extremamente alto e 820 milhões expostas a ondas de calor, enquanto o novo número para exposição a ondas de calor é de 1,5 bilhão e a exposição registrada à poluição do ar subiu de 1 bilhão à 2,3 bilhões. Em suma, poluição do ar 2,3 bilhões, malária 1 bilhão, enchentes fluviais 337 milhões, enchentes no litoral 33 milhões, ondas de calor 1,5 bilhão, calor extremo 1,2 bilhão, seca 1,8 bilhão, tempestade tropical 662 milhões, tempestade de areia e poeira 123 milhões e incêndios 206 milhões.