terça-feira, 22 de setembro de 2026

No Leite

Pesquisas na Índia reforçam evidências que apontam à contaminação por plástico proveniente das embalagens de leite, embora o leite indiano seja um dos alimentos mais confiáveis ​​no dia a dia, a pesquisa sugere que pode ser via inesperada pela qual microplásticos entram no organismo. Publicado no Journal of Food Composition and Analysis a pesquisa analisou microplásticos no leite da vaca cru embalado comercialmente e leite de vaca cru de origem local indiana, com pesquisadores encontrando 66 partículas em 9 amostras em concentrações que variavam de 3 a 30 partículas/litro, sendo que eram fibras ou fragmentos e, análises laboratoriais, evidenciam polietileno e polipropileno, 2 plásticos utilizados em embalagens como polímeros predominantes e cientistas afirmam que a interação com embalagens de alimentos era provável via de contaminação embora estivessem presentes no leite cru. Evidências publicadas no início de 2026 apontam às embalagens como causadoras do problema, considerando estudo de janeiro publicado no Food and Chemical Toxicology e conduzido por pesquisadores da Universidade Nacional de Ciências Forenses de Gujarat, analisou 6 marcas de leite embalado consumidas, bem como, leite fresco de fazenda, sendo que o leite de fazenda continha 17,8 partículas de microplástico por litro enquanto amostras de leite embalado variaram de 37,8 a 71,1 partículas por litro, quer dizer, até 4 vezes o nível encontrado no leite fresco. Segundo o estudo, o polietileno de baixa densidade comumente usado em embalagens de leite foi plástico predominante nas amostras embaladas, com cientistas dizendo que plásticos entrariam no leite em etapas incluindo sacos de ração, equipamentos de ordenha, filtros e ferramentas de processamento, com as embalagens adicionando ainda mais contaminação, preocupando pesquisadores da área da saúde ao dizerem que não é simples ingestão dessas partículas, mas, o que a exposição repetida ao longo de anos potencialmente causaria no organismo, com especialistas afirmando que pesquisas sobre consequências à saúde humana ainda estão em desenvolvimento e a detecção de microplásticos em alimentos não significa que o consumo de determinada quantidade de leite cause doenças. Estudos laboratoriais e com animais associaram exposição a microplásticos com inflamação, estresse oxidativo, lesões teciduais e disrupção de processos celulares normais, com revisão sistemática publicada no Environmental Science & Technology concluindo que microplásticos são suspeitos a prejudicar saúde digestiva, reprodutiva e respiratória direcionando à efeitos como inflamação intestinal crônica, alterações na resposta imunológica, comprometimento da qualidade do esperma e alterações nos hormônios reprodutivos. Vale a nota que microplásticos foram detectados no sangue, fígado, cólon, sêmen e leite materno humanos, sugerindo que partículas podem ultrapassar o trato digestivo, no entanto, cientistas se interessam particularmente por nanoplásticos, menores, considerando que seu tamanho diminuto facilitaria travessia de barreiras biológicas e interação com tecidos, já que, estudos investigam se exposição crônica contribui à doenças cardiovasculares e metabólicas, embora, especialistas ressaltem que a relação de causa e efeito em humanos, ou, nexo de causalidade, não foi definitivamente estabelecida. Por fim, o estudo de Gujarat, Índia, estima ingestão diária de microplásticos maior oriunda do leite embalado que do leite fresco da fazenda e observa que bebês podem estar sujeitos a exposição proporcionalmente maior.

Cientistas da Universidade de Tabriz, Irã, examinaram amostras de leite compradas em supermercados de Teerã encontrando partículas de microplástico em todas elas, em concentrações que variaram de 5 a 36 partículas/litro, com média de 18,4 partículas por litro. Publicada na Current Research in Food Science, intitulado 'Contaminação por microplásticos em leite comercial, quantificação e identificação de polímeros utilizando MEV-EDS e espectroscopia micro-Raman', o estudo liderado por Nazanin Jabbarzadeh e cols, adiciona o leite, alimento consumido diariamente por bilhões de pessoas, à crescente lista de produtos que carregam partículas microscópicas de plástico apontando à parte específica da cadeia de suprimentos de laticínios, ou, a embalagem. Processaram amostras por lote, expuseram filtros ao ar do laboratório em cada sessão de filtração, pré-filtraram reagentes através de membranas de 0,45 micrômetros e usaram jalecos de algodão e luvas de nitrilo em cabine de fluxo laminar minimizando contaminação por partículas suspensas no ar. As amostras em branco apresentaram uma média de 1,2 partículas por filtro e as amostras em branco para contaminação por partículas em suspensão no ar, 0,6, resultando em limite de detecção de 3,6 partículas por filtro, abaixo da menor concentração de amostra registrada. Cada amostra de um litro de leite digerida com peróxido de hidrogênio a 30% a 60º C por 24 horas foi filtrada a vácuo com filtros de fibra de vidro de 1,2 micrômetros, com pesquisadores adicionando quantidades conhecidas de partículas de microplástico padrão à água ultrapura e processando-as exatamente como as amostras, obtendo como taxas de recuperação que variaram de 82% ao tereftalato de polietileno a 96% ao polietileno, com média geral de 89%, corrigindo concentrações com fatores de recuperação específicos à cada polímero, ressaltando que, como as adições foram feitas em água em vez de leite, os valores de recuperação não representam validação completa do método à matriz láctea em si. Microscópica estereoscópica em ampliações de 40 e 100 vezes registrou 551 partículas nas amostras e o material coletado foi dominado por fragmentos que representaram 58% do total seguidos por fibras com 35% e esferas com 7%, fibras em maioria azuis ou transparentes, enquanto fragmentos tinham  paleta ampla, incluindo preto e vermelho. A composição química, 150 partículas, 5 por amostra, foram submetidas à microscopia eletrônica de varredura acoplada à espectroscopia de raios X por dispersão de energia, MEV-EDS, revelando texturas superficiais e perfis elementares, partícula de polietersulfona, por exemplo, apresentou pico característico de enxofre no espectro EDS, enquanto partículas de polietileno eram dominadas por carbono, além disso, analisadas por espectroscopia micro-Raman usando laser de 785 nanômetros com espectros comparados a bibliotecas de referência e padrões personalizados de 7 polímeros comuns. Dito isto, o polietileno emergiu como polímero mais abundante, 32% das partículas identificadas, seguido pelo polipropileno com 24%, PET com 15%, poliamida com 12% e polietersulfona com 9% e, 8% restantes não identificados ou de outra natureza, aqui, o detalhe, o polietileno e o polipropileno são polímeros mais comuns em garrafas plásticas de leite e materiais em contato com alimentos, enquanto poliamida e PET são característicos dos laminados da Tetra Pak, um alerta dos autores, identificação do polímero por si não determina origem de cada partícula. Por fim, o ponto central da pesquisa do ponto de vista estatístico é a comparação das embalagens em que o leite de garrafas plásticas continha, em média, 24,6 partículas/litro, o dobro das 12,2 partículas/litro encontradas em embalagens da Tetra Pak, cartonadas, quer dizer, diferença significativa e, em modelo de regressão linear múltipla, o tipo de embalagem foi o único preditor de contaminação, quase metade da variância nas concentrações enquanto o teor de gordura e a marca não apresentaram efeitos significativos, daí, o estudo estabelece associação com a embalagem e não comprova que garrafas sejam a fonte direta das partículas. Enfim, partículas menores de microplásticos são consideradas mais capazes de atravessar barreiras biológicas e serem absorvidas pelas células e 72% das partículas medidas tinham menos de 100 micrômetros e 41% menos de 50 e apesar dos autores enfatizarem que o estudo mede características de partículas e não absorção, distribuição nos tecidos ou quaisquer efeitos toxicológicos, ressaltam que nenhuma conclusão sobre riscos à saúde pode ser extraída apenas com base nesses dados e que o consumo de leite não deve ser considerado risco comprovado à saúde com base nessas evidências. Concluindo, a maioria dos dados sobre microplásticos em alimentos provém da Europa, Américas e Leste Asiático, enquanto regiões como o Irã foram pouco abordadas, apesar de relatos anteriores de microplásticos em leite, leite em pó e fórmulas infantis, quer dizer, a presença de microplásticos em leite comercial foi documentada e embalagens plásticas apresentam associação forte sendo que o significado científico à saúde humana é questão aberta e urgente. 

Moral da Nota: especialistas da Universidade de Minnesota, produziram pesquisa que detalha como poluição por microplásticos impacta saúde humana, animal e ambiental e devido aos diversos tipos de plásticos produzidos no mundo, são encontrados universalmente nos oceanos, solo, água doce e ar, paisagens e ecossistemas, difíceis de se decompor fazendo com que acumulem nos oceanos, solo, ar e cadeia alimentar. A pesquisa foi no Lago Superior um dos primeiros corpos de água doce do mundo a ser estudado quanto à presença de microplásticos, desde então, poluentes particulados foram encontrados em outros lagos de Minnesota, bem como, rios, sedimentos e peixes  descobertos na remota Reserva Natural Boundary Waters Canoe Area Wilderness. Sua presença na água, solo e ar permite absorção pelos menores membros da cadeia alimentar, cadeia da qual humanos fazem parte e dependem, essas partículas podem capturar e concentrar poluentes químicos, metais pesados ​​e microrganismos nocivos do  ambiente, contêm aditivos químicos que migra das partículas aos organismos, embora, ainda não saibamos a dose letal dos microplásticos, há evidências que sua presença representa impacto negativo na saúde e resiliência ecológica. Podem atravessar barreiras biológicas, serem absorvidos pelas plantas e, quando consumidos por animais e humanos, são absorvidos pela corrente sanguínea e se acumularem nos órgãos do corpo, como resultado, contribuir à efeitos adversos à saúde como distúrbios digestivos, risco de problemas cardiovasculares, distúrbios hormonais e reprodutivos e riscos ao desenvolvimento em humanos, em animais, reduz capacidade digestiva, inflamação dos tecidos, disrupção hormonal e fertilidade associadas ao acúmulo de microplásticos e nanoplásticos. Por fim, a pesquisa da Universidade de Minnesota analisou amostras ambientais coletadas no estado, água bruta, água da torneira e esgoto coletadas em fontes de Minnesota, ar ambiente, chuva e neve coletadas no telhado do campus em Minneapolis, produtos de consumo e liberação de microplásticos de filtros de água, escovas de dente, gelo de plástico e garrafas de água, cervejas regionais e sais de mesa importados e comprados no estado, concluindo que, poluição plástica é questão tanto local quanto global.


segunda-feira, 21 de setembro de 2026

NDC

Relatório do UN-Habitat mostrou número recorde de países que integram cidades, habitação e serviços urbanos nos planos nacionais de ação climática no âmbito do Acordo de Paris, intitulado, "Conteúdo Urbano nas NDCs 3.0: Cidades no Centro", constata que 80% das NDCs, Contribuições Nacionalmente Determinadas,apresentadas pelos países contêm medidas climáticas urbanas bem desenvolvidas, comparadas aos 49% registrados no ciclo anterior. Divulgada na 13ª sessão do Fórum Urbano Mundial, no Azerbaijão, examina 142 planos climáticos nacionais submetidos à COP, Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima até 15 de abril de 2026 e, segundo o relatório, governos cada vez mais reconhecem que, embora compromissos climáticos sejam em nível nacional, sua implementação ocorre nas cidades. O relatório mostra que 87% dos países incluem medidas de adaptação urbana nos planos climáticos, aumento, em relação aos 54% registrados em relatórios anteriores, que visam setores como infraestrutura, gestão de recursos hídricos, biodiversidade e proteção de ecossistemas. Acrescenta que países identificaram explicitamente riscos climáticos urbanos mostrando maior probabilidade de apresentar estratégias concretas de adaptação, sendo que, medidas de mitigação urbana apresentam crescimento, aparecendo em 83% dos planos climáticos submetidos, comparados aos 55% nos planos anteriores e focados em energia renovável,sistemas de transporte, eletrificação de veículos e gestão de resíduos. Observa que países de renda média vivenciando rápida urbanização lideram esforços de mitigação urbana enquanto países mais ricos integraram cidades de modo menos proeminente, apesar das fortes metas de redução de emissões em que habitação e assentamentos informais emergiram como prioridades climáticas, quase metade dos planos climáticos abordam questões como habitação resiliente, melhoria de favelas, segurança da posse da terra e comunidades urbanas seguras. O relatório afirma crescente atenção à habitação, refletindo reconhecimento global maior que mudanças climáticas e desafios habitacionais que se interligam, principalmente em regiões de rápida urbanização, vulneráveis ​​a desastres climáticos.

Ana Cláudia Rossbach, Diretora Executiva do UN-Habitat, disse que cidades são fundamentais à ação climática global, ou, "as conclusões do relatório demonstram reconhecimento que compromissos climáticos devem ser cumpridos onde se vive, através de melhores moradias, infraestrutura robusta e comunidades mais resilientes". Vale a nota que o relatório identifica progressos na implementação climática com 4 em cada 5 países incluindo pelo menos uma estratégia para apoiar a ação climática urbana, no entanto, alerta que financiamento climático às cidades é insuficiente, já que, 19% dos planos apresentados tinham mecanismos específicos de financiamento urbano. O relatório analisa a questão regional mostrando progresso desigual no mundo, na Ásia, por exemplo, 77% dos planos climáticos submetidos tinham medidas urbanas bem desenvolvidas e com maior cobertura populacional urbana global, na Europa, observa que a proposta climática coletiva da UE reflete foco em cidades e governança multinível, sendo que o presidente designado da COP31 e Ministro do Meio Ambiente, Urbanização e Mudanças Climáticas da Turquia, Murat Kurum, afirma que cidades são cruciais à ação climática e resiliência, mencionando esforços de reconstrução urbana nacional pós terremoto e observando que meio milhão de casas foram construídas com padrões de eficiência energética e sustentabilidade ambiental e, conclui, “na COP31, queremos compartilhar a experiência com o mundo e ampliar soluções nas cidades à torná-las resilientes e sustentáveis”. Simon Stiell, secretário-executivo da Convenção-Quadro da ONU sobre Mudança do Clima, alertou que os novos planos climáticos colocam cidades no centro da implementação, ao dizer que, “é hora de passar das palavras no papel aos projetos concretos no mundo, sem ações locais, as metas climáticas globais serão impossíveis de alcançar”, já, o prefeito de Chefchaouen, Marrocos, e embaixador regional da GCoM à África, Mohamed Sefiani, destaca necessidade de apoio robusto aos governos locais, enfatizando que, "esses mecanismos urbanos são o que transformam a ambição climática em moradias mais seguras, infraestrutura mais forte, melhor transporte e serviços básicos mais confiáveis." O relatório conclui que mais de 50 países não haviam apresentado planos climáticos atualizados, descrevendo como oportunidade à fortalecer compromissos climáticos urbanos antes da COP31 programada para ser em Antalya, Turquia.

Moral da Nota: cientistas afirmam que dois terços da floresta amazônica podem se degradar, ou, ecossistemas semelhantes a savanas, com aquecimento global de 1,5 a 1,9°C, caso o desmatamento aumente à 22 a 28% do ecosistema amazônico, constatado por pesquisa do PIK, Instituto Potsdam à Pesquisa do Impacto Climático, que, sem desmatamento adicional, as mudanças em larga escala ocorreriam em níveis de aquecimento mais elevados, ou, em torno de 3,7ºC a 4°C. Nico Wunderling, cientista do PIK e principal autor do estudo, avalia que, “o desmatamento torna a Amazônia menos resiliente que o previsto, ressecando a atmosfera e enfraquecendo capacidade da floresta de gerar chuvas”, concluindo que, “mesmo aquecimento adicional moderado desencadearia impactos em cascata em grandes áreas da floresta”, considerando que, 17 % a 18% da floresta amazônica está perdida, colocando o ecossistema próximo da faixa crítica identificada no estudo. Fornece quantificação detalhada, até o momento, de, como o aquecimento global e o desmatamento impactam simultaneamente a estabilidade Amazônica, combinando projeções climáticas, modelagem hidrológica e abordagem de rede ao transporte de umidade atmosférica, com Arie Staal, professor assistente da Universidade de Utrecht, Holanda, coautor do estudo, dizendo que, “o desmatamento interrompe o transporte de umidade em uma área da Amazônia, daí,regiões inteiras a centenas ou até milhares de kms de distância podem perder resiliência devido efeitos em cascata da seca”, concluindo que, “o aquecimento global e o desmatamento afetam ciclos de precipitação no sistema amazônico”. Avalia que, uma das razões à degradação florestal é a capacidade de gerar parte de sua própria chuva, ou, até metade da precipitação provém da água reciclada pelas próprias árvores, enquanto na Amazônia as árvores liberam vapor de água na atmosfera que posteriormente retorna sob forma de chuva na bacia e, quando a floresta tropical é perdida, a reciclagem de umidade enfraquece, o estresse hídrico aumenta e outras regiões florestais tornam-se mais vulneráveis ​​à degradação. Cientistas enfatizam que interromper desmatamento e restaurar a cobertura florestal fortaleceria resiliência amazônica ao aquecimento inevitável, com Johan Rockstrom, diretor do PIK e coautor do estudo, avaliando que, “a floresta desempenhou papel vital na estabilização do sistema terrestre como sumidouro de carbono, reguladora da reciclagem da umidade e lar da mais rica biodiversidade terrestre do planeta, conclui que, o desmatamento contínuo mina a estabilidade, leva a floresta cada vez mais perto de um ponto de inflexão o que não seria apenas devastador à região, mas poderia ter consequências de longo alcance no planeta” e, termina, “essas mudanças não são inevitáveis e interromper o desmatamento com restauração ecológica de florestas degradadas e cortes rápidos nas emissões, pode reduzir os riscos”.