terça-feira, 24 de março de 2026

Preservação Ambiental

Blockchain e preservação ambiental impulsionam iniciativas sustentáveis ​​através da tecnologia, de livros transparentes à negociação de créditos de carbono, transforma o modo como protegemos o planeta, com poluição, mudanças climáticas, desmatamento e perda de biodiversidade como desafios mais prementes que enfrentamos. Blockchain é tecnologia que permite criação de redes descentralizadas, transparentes e seguras, onde as transações e trocas de valores podem ser registrados e verificados, com potencial de transformar setores e atividades relacionadas ao ambiente, desde monitoramento e rastreabilidade de cadeias de suprimentos a criação de instrumentos financeiros inovadores, negociação peer-to-peer de títulos tokenizados, habilitação de sistemas descentralizados de energia e gerenciamento de recursos comuns, bem como rastreabilidade da pegada de carbono de indivíduos e empresas.

Uma das aplicações blockchain ao ambiente é o monitoramento e rastreabilidade da cadeia de suprimentos que permite criação de registros digitais imutáveis ​​e verificáveis ​​dos produtos e matérias-primas que circulam, da origem ao destino final, facilitando controle e auditoria das condições ambientais e sociais que as mercadorias são produzidas e transportadas, bem como cumprimento de padrões de sustentabilidade, qualidade, segurança, além disso, melhora eficiência reduzindo desperdícios na cadeia de suprimento. O IBM Food Trust é rede blockchain que conecta participantes da cadeia alimentar, agricultores e varejistas, melhorarando segurança e qualidade dos alimentos, reduzindo fraudes e desperdícios e, possibilitando em tempo real, compartilhamento de dados e informações sobre origem, estado e movimentação de alimentos. Plastic Bank é iniciativa que usa blockchain à incentivar coleta e reciclagem de plásticos em áreas vulneráveis ​​via colecionadores remunerados com tokens digitais em troca do plástico que coletam, trocados por bens ou serviços, cujo plástico recolhido, é transformado em material reciclado e vendido às empresas. Aplicação relevante blockchain ao ambiente é a criação de instrumentos financeiros que facilitam acesso ao capital e investimento em projetos verdes, permitindo emissão e gestão de ativos digitais que representam valores ou direitos sobre bens ou serviços ambientais, como créditos ou títulos de carbono, certificados verdes ou direitos sobre a água. O fato de ativos digitais serem negociados em plataformas descentralizadas, sem intermediários ou atritos, reduz custos, aumenta liquidez e transparência do mercado, além disso, permite criação de contratos inteligentes que automatizam o cumprimento das condições e pagamentos associados aos instrumentos financeiros. Neste conceito insere a Poseidon, plataforma que usa blockchain à conectar consumidores em projetos de conservação florestal, permitindo que consumidores compensem pegada de carbono das compras adquirindo créditos de carbono usados ​​para financiar projetos de proteção e restauração florestal em diferentes partes do mundo. A ClimateTrade é plataforma que utiliza blockchain para facilitar compra e venda de créditos de carbono entre empresas e organizações, permitindo que empresas compensem emissões de gases efeito estufa investindo em projetos de mitigação das mudanças climáticas, sendo que a plataforma garante rastreabilidade, segurança e transparência das transações. Outra aplicação relacionada é a negociação ponto a ponto de valores mobiliários tokenizados, ou, ativos digitais que representam direitos ou participações em bens ou serviços reais, sendo que blockchain permite criação e transferência de tokens sem intermediários ou barreiras geográficas, abrindo possibilidades de troca de valor entre pessoas e organizações. Em consequência, impacta de modo positivo no ambiente, permite acesso a recursos compartilhados, fomenta economia circular, democratiza propriedade e financia projetos sustentáveis, além disso, facilita medição e relatório do impacto ambiental e social desses tokens. Dentre os projetos que usam blockchain para negociação ponto a ponto de títulos tokenizados emerge a WePower, plataforma que utiliza blockchain para conectar produtores e consumidores de energia renovável permitindo que produtores emitam tokens representando unidades de energia produzida ou futura e vendam diretamente aos consumidores ou investidores com os tokens podendo ser usados ​​para consumir energia ou acessar o mercado atacadista de eletricidade. A Everledger é plataforma que usa blockchain para rastrear o ciclo de vida de produtos de luxo, como diamantes, vinhos ou arte, permitindo criação de registo digital único e inalterável à cada produto incluindo informação sobre característica, origem, história e propriedade, melhorando confiança, segurança e transparência no mercado. A BanQu é plataforma que usa blockchain para criar identidades econômicas digitais à pessoas e organizações sem acesso ao sistema financeiro tradicional, permitindo que usuários registrem e verifiquem transações e interações com outras partes como fornecedores, clientes ou parceiros, facilitando acesso a serviços financeiros, oportunidades de negócios e programas sociais.

Moral da Nota: o desenvolvimento de soluções de comercialização de energia renovável ganha força no setor, com alguns exemplos como a Power Ledger, plataforma que usa blockchain para permitir negociação peer-to-peer de energia renovável entre usuários, compra e venda do excedente ou déficit de energia à outros usuários próximos ou distantes, dependendo das preferências e necessidades, oferece soluções ao financiamento de projetos de energia renovável, gestão de ativos energéticos e verificação de emissões evitadas. A LO3 Energy, empresa que usa blockchain à criar redes locais conectando produtores e consumidores de energia renovável, com Brooklyn Microgrid como projeto mais conhecido, rede comunitária que permite vizinhos trocarem energia solar entre si, além de fornecer desenvolvimento de redes inteligentes e serviços de consultoria aos clientes. A Grid Singularity é empresa blockchain de plataforma aberta e descentralizada no mercado global de energia visando facilitar acesso e participação de atores do setor de energia, de geradores e distribuidores a consumidores e prestadores de serviços permitindo troca de dados, gerenciamento de demanda e otimização de recursos energéticos. A gestão de recursos comuns, ou, bens e serviços compartilhados por comunidade que possuem valor social ou ambiental, podem ser naturais como a água, ar ou biodiversidade, ou, artificiais, como o conhecimento, cultura ou o espaço público e, a blockchain, auxilia melhorar a gestão desses recursos comuns, permitindo criação e manutenção de sistemas colaborativos que regulam uso e conservação, facilitam identificação, registro e monitoramento desses recursos, bem como definição e cumprimento de regras e incentivos ao uso sustentável. Um exemplo de iniciativa blockchain é a organização autônoma descentralizada, DAO, que  gerencia sistema integrado de contabilidade e compensação ambiental, o DAO IPCI, que facilita cooperação entre diferentes atores à mitigação e adaptação de alterações climáticas, permitindo registro, verificação e comercialização de diferentes tipos de ativos ambientais como créditos ou obrigações de carbono, certificados verdes ou direitos de água. A habilitação de sistemas descentralizados de energia, onde usuários geram, armazenam, consomem e compartilham energia renovável sem intermediários, através da blockchain, permite criação de redes inteligentes que gerenciam fluxo e distribuição de energia entre usuários, conforme oferta e demanda, com benefícios ambientais, sociais e econômicos ao reduzir emissões de gases efeito estufa, aumentando resiliência e segurança energética, reduzindo custos e perdas de transporte e distribuição, além de capacitar comunidades facilitando integração e interoperabilidade de fontes e dispositivos de energia.

sexta-feira, 20 de março de 2026

Luxo e Desmatamento

Na Argentina o mercado de luxo europeu financia desmatamento do "ouro vermelho", sendo que, a indústria têxtil de luxo européia utiliza taninos da árvore quebracho para curtir couro impulsionando desmatamento no Gran Chaco argentino, pulmão verde da América do Sul e, entre 2010 e 2023, 183 mil hectares foram perdidos/ano parte da extração ilegal. Unitan e Indunor são empresas que processam taninos que chegam às marcas internacionais como Timberland, H&M e Dr. Martens, enquanto trabalhadores locais recebem salários irrisórios e pobreza atingindo 80% na região, apesar de leis de proteção florestal, licenças especiais e falta de fiscalização que permitem extração ilegal de madeira, deixando florestas nativas destruídas e causando danos ambientais. A extração responde por parte do desmatamento argentino em que caminhões com toras de quebracho prontas às serrarias no Chaco argentino, sendo que o "ouro vermelho", ou, taninos nas toras de quebracho, que alimenta indústria têxtil de luxo na Europa causando desmatamento e devastação da área do Chaco argentino. Reportagem investigativa publicada na Revista Anfibia esclarece que o extrato vegetal é usado para curtir couro conferindo firmeza, corpo e aroma, através de processo artesanal antes de vender à fabricantes de artigos de couro ou marcas de moda de luxo, sendo que da floresta do Chaco passa pelo porto de Buenos Aires e os taninos são exportados à 50 países, deixando rastro de desmatamento, trabalhadores mal remunerados e atividades ilegais que autoridades não combatem. O Chaco argentino faz parte do Chaco americano, pulmão da América do Sul depois da Amazônia, com mais de 1 milhão km² entre Argentina, Paraguai, Bolívia e Brasil, abrigando florestas secas do planeta e uma das mais ameaçadas, estimando-se nas 2 últimas décadas, mais de 13 milhões de hectares desmatados, equivalente à soma da Espanha e França, habitat de crescimento do quebracho-colorado, espécie nativa que leva de 20 a 50 anos para atingir maturidade e, além da madeira, produz tanino, muito procurado. Por fim, marcas como Timberland, CAT, Dr. Martens, Wolverine e H&M clientes da Golden Chang Shoes, empresa sediada em Bangladesh que, em 2024, comprou produtos com tanino de quebracho da empresa americana Tannin Corporation que o adquiriu da Unitan, para concluir, processo judicial conhecido como "A Máfia do Desmatamento" movido pela Associação Argentina de Advogados Ambientalistas, revelou que das 200 mil toneladas de madeira de quebracho consumidas anualmente por curtumes 80 mil toneladas provêm de áreas desmatadas ilegalmente.

Lá como cá, a Eritréia desenvolve sistema solar híbrido que garante fornecimento de oxigênio hospitalar através da empresa Aptech Africa e, em comunicado, avisa que desenvolveu sistema fotovoltaico híbrido para alimentar unidade de produção de oxigênio do Hospital de Mendefera, Eritreia. O projeto inclui painéis solares à nível do solo, inversores híbridos e capacidade total de 251,97 kWp, complementada por 460,8 kWh de armazenamento em baterias e integração a rede elétrica nacional e, conforme a Aptech Africa, o sistema garante funcionamento contínuo e estável da produção de oxigênio, essencial à cuidados urgentes, procedimentos cirúrgicos, apoio materno e tratamento de doenças respiratórias. A empresa nos esclarece que “o sistema híbrido assegura que a geração de oxigênio permaneça estável e operacional, sem interrupçōes”, sendo que o projeto é apontado como passo para reforçar resiliência energética das infraestruturas de saúde no país. Autoridades da ONU informam que a Somália enfrenta emergência devido seca que se agrava, com áreas ressecadas pós 4 temporadas de chuvas fracassadas deixando milhões em risco de fome e deslocamento e, em 10 de novembro, o Governo Federal Somali declarou estado de emergência devido a seca e apelou por assistência internacional, à medida que condições se deterioram nas regiões norte, central e sul, conforme o OCHA, Escritório da ONU à Coordenação de Ajuda Humanitária. Em Dhaxan, chuvas da estação de abril a junho trouxeram esperança passageira no início de 2025, sendo que os moradores dependem de água transportada por caminhões depois que o poço artesiano local foi contaminado, em consequência, 150 famílias se mudaram em  23 de novembro, o Plano de Resposta Humanitária Somali à 2025 estava financiado em 23,7%, forçando reduções na assistência em que o número de pessoas recebendo ajuda alimentar emergencial caiu de 1,1 milhão em agosto à 350 mil. A seca se alastra em cenário desolador prevendo-se que pelo menos 4,4 milhões de pessoas enfrentem insegurança alimentar aguda fins de 2025, enquanto 1,85 milhão de crianças menores de 5 anos devem sofrer desnutrição aguda até meados de 2026, sendo que as previsões meteorológicas indicam pouco alívio, com a FAO, Organização da ONU à Alimentação e Agricultura, alertando que condições secas e quentes devem persistir em parte do país particularmente regiões central e norte.

Moral da Nota: a CEPAL relata que a América Latina atingiu menor nível histórico de pobreza com 162 milhões de pessoas, 25,5%, vivendo abaixo da linha da pobreza, graças a avanços no México e Brasil em que pobreza multidimensional que mede privação em moradia, saúde, educação e serviços, diminuiu de 34,4% em 2014 à 20,9% em 2024. A desigualdade permanece alta com os 10% mais ricos concentrando 34,2% da renda, os 10% mais pobres recebendo 1,7%, com a CEPAL alertando que a disparidade limita mobilidade social e desenvolvimento recomendando políticas educacionais, trabalhistas e de inclusão social visando redução. Revelou que a região apresenta menores níveis de pobreza contrastando com altos e persistentes níveis de desigualdade que impedem desenvolvimento social e econômico dos países, daí, conclui o relatório anual "Panorama Social da América Latina e Caribe", apresentado pela organização, que se concentrou em alternativas à escapar da "armadilha" da alta desigualdade, baixa mobilidade social e fraca coesão social, fatores reforçados pela falta de políticas redistributivas. Buscando escapar dessa armadilha, recomenda "reduzir desigualdade educacional, criar empregos de qualidade, promover igualdade de gênero e sociedade do cuidado, combater discriminação contra pessoas com deficiência, povos indígenas e migrantes e fortalecendo instituições sociais e seu financiamento". O relatório examina múltiplas dimensões em que desigualdade se manifesta na região, incluindo renda e, segundo os dados, em fins de 2024, 162 milhões de pessoas viviam em situação de pobreza representando redução de 2,2% comparados com 2023 e de 7% desde 2020, 1º ano da pandemia que impactou negativamente indicadores sociais e econômicos tratando-se da menor taxa de pobreza na região desde o início dos estudos. Por fim, o relatório é positivo em relação à pobreza multidimensional que mede privações em áreas como habitação, serviços, educação e saúde, tendo caído de 34,4% em 2014 à 20,9% em 2024, no entanto, a pobreza extrema que afeta 62 milhões de pessoas, 9,8% da população, representou queda de 0,8% em relação a 2023 permanece 2,1% acima da mínima histórica registrada em 2014 e, contrastando com avanços na redução da pobreza, a América Latina continua sendo a região mais desigual do mundo com os 10% mais ricos da população recebendo 34,2% da renda total enquanto os 10% mais pobres recebem 1,7%.