terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ártico Global

O livro de Mia Bennett e Klaus Dodds’, “Unfrozen”, se refere ao derretimento do gelo Ártico devido mudanças climáticas e, portanto, perspectiva ecológica busca mostrar que processos geopolíticos e ecológicos do Ártico se interligam e não podem ser compreendidos isoladamente. Reflete a insistência dos autores’ que ecologia e política devem ser consideradas em conjunto sendo que a interconexão entre mudanças ecológicas e geopolítica é clara quando se trata de eventos que levaram 8 estados regionais, ou, Canadá, Islândia, Dinamarca/Groenlândia, Noruega, Finlândia, Rússia, Suécia e EUA estabelecerem vínculos cooperativos. Argumentam modo persuasivo que o interesse na proteção do ambiente Ártico e o relaxamento das tensões Leste-Oeste a partir de fins da década de 1980 encorajaram cooperar, com os autores apresentando argumentos em 10 capítulos que oferecem visão completa da história do Ártico e como mudou ecológica e geopoliticamente desde tempos antigo, via eventos que caracterizam e caracterizaram a região. Explicam que, embora o clima Ártico tenha mudado, o aquecimento o tornou irreconhecível não apenas à cientistas que o estudam, mas, às pessoas que o habitam por milênios, no geral, os autores fornecem análise do que acontece na região e, vincula presente e passado compreedendo o desenvolvimento regional desde fins dos anos 2000. O derretimento Ártico gerou “lutas por e entre grupos pelo poder sobre, recursos, espaço,território e influência de características em seu poder”, quer dizer, intimamente ligados, considerando que o derretimento do gelo não afeta apenas o ecossistema Ártico mas tem consequências geopolíticas inevitáveis, o meio ambiente e populações são direta e profundamente afetados pelo aquecimento global, que causa desastres ecológicos como incêndios florestais de tundras e transforma o Ártico em novo oceano em muitos aspectos. Em futuro próximo é provável que o gelo em muitas áreas, derreta, deixando corpos de água, mudança com implicações geopolíticas e jurídicas, conforme explicam os autores, daí, o exemplo a respeito do Art. 234 da Convenção da ONU sobre Direito do Mar, UNCLOS, concedendo aos estados costeiros privilégios especiais para regular poluição marinha em ‘áreas cobertas de gelo’ de sua ZEE, Zona Econômica Exclusiva. 

A Estratégia de Proteção Ambiental do Ártico, 1991, absorvida pelo Conselho do Ártico, fórum intergovernamental que orienta a cooperação regional, desde 2011, os estados do Conselho do Ártico possuem acordos juridicamente vinculativos sobre busca e salvamento, resposta a derramamentos de óleo e cooperação científica e, a partir de 1998, se expandiu admitindo observadores, ou, estados e interessados em envolver-se como estados europeus e asiáticos. Vale a nota que o Ártico não é apenas bastião de riqueza de hidrocarbonetos, mas, fronteira de energia verde com hidrelétrica e eólica como fontes renováveis produzidas, especialmente Islândia, Groenlândia, Noruega e Suécia, cabos submarinos transportando mais de 95% das comunicações digitais oceânicas, vitais em transmitir eletricidade gerada pelas renováveis. A Suécia detém a maior mina de minério de ferro, o Alasca as maiores minas de zinco e outros minerais, por exemplo, cobre, ouro e níquel, encontradas em partes do Ártico, a China, parceira da Rússia, promove a mineração russa, em 2023, assinaram acordo para desenvolver o maior depósito de titânio do mundo na República de Komi, Rússia, considerando ainda terras raras da Groenlândia que atraíram interesses chineses e australianos, bem como formuladores de políticas da UE e EUA, aqui, o detalhe, com o governo da Groenlândia emitindo licenças de exploração e mineração, não foi ainda desenvolvido. A erosão do permafrost dificulta manutenção da infraestrutura e construção de instalações e, variabilidade e mobilidade do gelo marinho colocam em risco o transporte marítimo, portanto, “agravando volatilidade ambiental, o Ártico continua remoto, dispendioso às empresas e carente de mão-de-obra qualificada e de infra-estruturas”, conforme os autores. Por fim, o Acordo Internacional à Prevenir Pesca Não Regulamentada no Alto Mar do Oceano Ártico Central, CAOFA, assinado pelos 8 estados do Ártico, China, UE, Japão e Coreia do Sul entrou em vigor em 2021, ao considerar que peixes constituem importante mercadoria global a regulamentação da pesca é de extrema importância, especialmente inserida em mudanças climáticas que podem alterar a distribuição dos estoques pesqueiros de modo que criar tensões entre os estados, como entre Rússia e Noruega em Svalbard. Em conclusão, autores abordam o impacto das mudanças no Ártico sobre povos indígenas da região forçados a adaptar-se às novas condições ambientais, enquanto rupturas geopolíticas, trouxeram mudanças políticas, por exemplo, indígenas do Ártico cortaram laços com homólogos na Rússia, em contraste, o Conselho Circumpolar Inuit, de 1977, sobrevive e, em 2025, tornou-se a 1ª'Organização de Povos Indígenas’ obter status consultivo permanente na OMI, Organização Marítima Internacional. Atores extraterritoriais focados na governança regional é razão pela qual o Ártico passa por mudança de nome à “Ártico Global”, além do significado geopolítico, o termo “Ártico Global” tem significado ecológico pois indica que o encolhimento do gelo marinho e glaciares, o degelo do permafrost e temperaturas mais elevadas, afetam todo o planeta.

Moral da Nota: geleiras no Himalaia Central de Uttarakhand recuam em média 23,23 m/ano, podendo chegar a taxas de 88 m/ano, conforme estudo que descobriu que o aumento das temperaturas, características das geleiras e topografia moldam o ritmo da perda de gelo. O estudo “Avaliação dependente do tempo da recessão glacial no Himalaia Central Indiano” se baseia em observações e imagens de satélite de 1990 a 2024, descobriu que a altitude da linha de equilíbrio aumentou quase 500 mts em determinadas regiões desde 2000. Conduzido por Manish Mehta do Instituto Wadia de Geologia do Himalaia em Dehradun, com Jyoti Kumari, Girish C Kothyari e Atul Kumar Patidar da Universidade de Estudos de Petróleo e Energia, UPES, Dehradun e publicado no Discover Geoscience, segundo Mehta, “a resposta tinha variado substancialmente entre geleiras individuais, as taxas de recuo variaram de 3,7 metros/ano às geleiras estáveis ou cobertas de detritos, como Bhagirathi e Satopanth, à 88 metros/ano à Geleira Khatling, geleira de gelo limpo”. Encontrou diferença nas taxas de recuo entre geleiras com gelo limpo e cobertas de detritos, sendo que geleiras de gelo limpo são vulneráveis à ablação térmica ou perda de gelo pelo derretimento, enquanto as que terminam em lagos pró-glaciais estão expostas à perda de gelo quando grandes pedaços se quebram em um lago, por exemplo, a geleira Milam, gerou 47 novos lagos glaciais, em contraste, geleiras cobertas por camadas de detritos experimentaram taxas de derretimento mais baixas já que os detritos atuam como escudo isolante natural. Por fim, conjuntos de dados meteorológicos e de reanálise mostraram que o final do século XX, de 1980 a 1999, foi caracterizado por tendência “de aquecimento e secagem” com queda na precipitação e aumento constante das temperaturas, o período pós-2000 no entanto, mudou para fase mais úmida com tendências de precipitação, com o estudo descobrindo que o aumento da precipitação e acúmulo de neve pós o ano 2000  forneceu proteção temporária à algumas geleiras cobertas de detritos do leste e diminuiu taxas de recuo. Em suma, a geometria da geleira, inclinação, aspecto e índice de forma, juntos, respondem por até 46% da variação local na perda de gelo, mesmo com o aquecimento atmosférico sendo o principal motor da deglaciação o estudo concluiu que fatores locais e não climáticos desempenham papel substancial na determinação do modo como glaciares individuais respondem.

segunda-feira, 28 de setembro de 2026

Mar Vermelho

Espécies que migram do Mar Vermelho ao Mediterrâneo remodelam o ecossistema marinho ao competir com espécies nativas por alimento e habita pressionando populações, esta é a avaliação de Mehmet Gokoglu, Faculdade de Pesca da Universidade Akdeniz, ao esclarecer a agência turca Anadolu, AA, que propagação de espécies oriundas do Mar Vermelho ao Mediterrâneo mudam não só a diversidade, mas relações alimentares entre organismos marinhos. Disse que o Mediterrâneo abriga variedade de espécies nativas, acrescentando que as invasoras que se estabelecem na região eventualmente começam usar as mesmas fontes alimentares e compartilhar os mesmos habitats que as espécies nativas, quer dizer, capacidade das espécies introduzidas de estabelecer populações no novo ambiente indica que são resilientes e adaptáveis, concluiu dizendo que, “espécies vindas de fora são espécies fortes, estabeleceram população pós entrarem no ambiente, são resilientes e fortes, por isso, pressionam as do Mediterrâneo”. Oriundas do Mar Vermelho utilizam mesmas fontes alimentares que  nativas do Mediterrâneo, enquanto outras se alimentam diretamente dos filhotes, ovos e larvas de espécies nativas, observando que, isso pode alterar a distribuição e densidade populacional de espécies nativas, acrescentando que a integração de espécies do Mar Vermelho na cadeia alimentar do Mediterrâneo criou novas relações ecológicas, quer dizer, “espécies do Mediterrâneo antes não estavam no menu do Mar Vermelho, após entrar no Mediterrâneo passaram fazer parte da dieta, do mesmo modo, espécies do Mar Vermelho não estavam no menu das mediterrânicas, agora, se tornaram parte da dieta, isso trouxe mudança”. Nos alerta que os efeitos da mudança são perceptíveis entre organismos que vivem no fundo do mar, por exemplo, baiacu originário do Mar Vermelho se alimenta de organismos que os habitantes do fundo do mar, crustáceos e moluscos, bem como polvos, chocos e lulas, observou que, “baiacu se move ao longo do fundo do mar e consomem espécies bentônicas, incluindo crustáceos e moluscos, polvos, chocos e lulas, é por isso, que vemos populações de polvos diminuírem ao longo da costa do Mediterrâneo, quer dizer, pressões e mudanças semelhantes estão ocorrendo”. Avalia que a utilização dos mesmos recursos por espécies do Mar Vermelho e nativas muda gradualmente relações entre organismos no ecossistema, acrescentando que o impacto não se limita a uma única espécie, quer dizer, mudanças causadas pelas espécies originárias do Mar Vermelho têm consequências não só ao ecossistema, mas, à pesca, com algumas espécies invasoras utilizadas economicamente, no entanto, observa que espécies sem valor econômico consomem alimentos e ocupam habitat no ecossistema, significando incapacidade de utilizá-los representando perda econômica. Esclarece que “há competição por comida e habitat, podemos fazer uso de espécies invasoras, no entanto, existem espécies, como o baiacu, não utilizadas e ocupam espaço não sendo possível extrair deles qualquer valor econômico significando perda” e, conclui, "o quadro emergente de espécies originárias do Mar Vermelho espalhadas no Mediterrâneo mostra que as mudanças no ecossistema marinho não são questão de surgimento de novas espécies, envolvem remodelação das relações alimentares e padrões de partilha de habitat entre espécies."

Outra questão relacionada a mudanças no ambiente, diz respeito ao Fitch, alertando que os "efeitos mais intensos do El Niño podem pressionar resultados do setor de seguros do Brasil, daí, a Fitch Ratings, agência global de classificação de risco de crédito que fornece avaliações e análises em mercados financeiros, prevê que a intensificação do El Niño criará desafios adicionais ao setor de seguros no país. Afirmou que eventos climáticos mais frequentes e severos podem resultar em aumento nas indenizações e em desempenho técnico mais fraco entre seguradoras com exposição significativa de atividade propensas a catástrofes, no entanto, não considera o impacto potencial suficiente para criar evento de crédito sistêmico ao setor, embora seguradoras individuais possam enfrentar aumento nas perdas esperadas. Esclarece que consequências do El Niño deverão variar entre regiões devido extensão territorial do país e condições climáticas, esperando-se que no sul enfrentem maior exposição a inundações, tempestades severas, ventos fortes e granizo, aumentando indenizações em seguros residenciais e veicular, no norte e Nordeste, a seca e temperaturas extremas poderão afetar atividade econômica e negócios agrícolas com perdas que poderão se estender além dos ativos segurados, daí, identifica o Centro-Oeste como área de preocupação, particularmente às seguradoras rurais, já que, a imprevisibilidade de chuvas e aumento da variabilidade climática podem afetar produção agrícola e pedidos de indenização. Vale a nota que perdas potenciais foram demonstradas em 2024 no Rio Grande do Sul, que a agência de risco cita como exemplo de consequências financeiras associadas a eventos climáticos extremos com mais de 57 mil sinistros registrados naquele ano, enquanto pedidos de indenização ultrapassaram R$ 6 bilhões. A agéncia considera o seguro agrícola uma das áreas do mercado brasileiro mais suscetíveis ao El Niño, aponta aos efeitos do fenômeno, com regiões potencialmente sofrendo com períodos de seca, enquanto outras enfrentam chuvas excessivas, criando riscos à produção agrícola e aumentando incerteza às seguradoras que cobrem lavouras e ativos rurais, destacando diminuição da área de terras agrícolas cobertas por seguros, ao lado da redução do programa governamental de subsídios aos prêmios como fatores que podem deixar os agricultores cada vez mais expostos a perdas relativas ao clima. Por fim, a agência de risco indica que a área de terras agrícolas seguradas atingiu 14 milhões de hectares em 2021, ou, 15% das terras cultivadas do Brasil, em 2025, havia caído à 3,2 milhões de hectares, 3% da área plantada do país, com a Fitch calculando que representa redução de 75% em relação ao pico de 2021 aumentando a proporção de perdas agrícolas que não são transferidas às seguradoras. Afirma que as seguradoras com carteiras mais diversificadas e exposição limitada a negócios sensíveis às condições climáticas devem sofrer menos pressão direta do El Niño, no entanto, observa que essas empresas podem ser afetadas por consequências secundárias incluindo interrupções nos negócios e em cadeias de suprimentos.

Moral da Nota: o El Niño 2026/2027 foi apontado como responsável pelo aquecimento das temperaturas da superfície do mar, no caso peruano, maior pescador mundial de anchova, enfrenta "golpe devastador" devido ao aquecimento oceânico que dizimou a produção e provocou desemprego, segundo representantes do setor. Ingrediente fundamental na farinha de peixe, a anchoveta é utilizada na fabricação de ração animal e fertilizante orgânico, com dados do governo que o Peru capturou 1,3 milhão de toneladas métricas desse peixe prateado em maio de 2025, no entanto, o El Niño 2026, que cientistas preveem como o maior em mais de um século, é apontado como responsável pelo aquecimento da temperatura da superfície do mar e forçar migração à mares mais frios. Em consequência, o Peru capturou 32 mil toneladas métricas de anchovas em maio de 2026 sendo um dos países da América Latina que declararam estado de emergência devido condições climáticas, quer dizer, o El Niño eleva temperaturas da superfície no Pacífico equatorial central e oriental, gera mudanças globais em ventos e chuvas, bem como condições climáticas instáveis, com previsão de cientistas que o fenômeno atual atingirá pico até fim do ano e causará calor global recorde em 2027. O IMARPE, Instituto do Mar do Peru, avisa do registro nas temperaturas até 6°C acima do normal em algumas áreas e, acostumadas as águas frias, anchovas migraram às águas mais profundas com, Jessica Luna, da Sociedade Nacional de Pesca do Peru, que representa a indústria dizendo que, "é um golpe devastador no setor". Por fim, estudo que constatou que a pesca e indústrias relacionadas representarão 1,1% do PIB do Peru em 2026, relata queda em relação aos 2,1% previstos para 2025, sendo que o país possui 8 mil pescadores industriais registrados, no entanto, o setor é grande empregador em terra, quer dizer, cria 250 mil empregos, sendo que 122 mil serão perdidos até 2027, segundo a representante da Sociedade Nacional de Pesca, com o detalhe que a 2ª temporada de pesca começa em novembro, que parece incerto, ou, "que o El Niño atingirá seu ápice naquele mês".