sábado, 15 de agosto de 2026

Desinformação

Relatório divulgado pelo Centro de Integridade Climática, CCI, grupo de pesquisa e defesa, mostra que empresas de combustíveis fósseis sabiam na década de 1960 que rotular o gás como “limpo” era enganoso. Explica como a indústria de petróleo e gás tinha conhecimento dos danos climáticos do metano e, mesmo assim, promoveu o gás natural como solução ao clima com, documentos nunca antes publicados, mostrando que propagaram por décadas o mito do gás natural "limpo" apesar do conhecimento dos perigos do metano e do sistema de gás. Em paralelo, promoveram o debate da expansão da extração e uso de gás natural, quer dizer, "A Fraude do Gás Natural 'Limpo', ou, como Empresas de Petróleo e Gás criaram o Mito que o Gás Natural é Solução Climática" mostrando como a indústria fabricou e promoveu desinformação na década de 1970 que gás natural é "limpo" e, desde então, colonizou tomadores de decisão e público sobre riscos e segurança. O relatório diz que “a propaganda sobre gás natural limpo é essencial ao sucesso da indústria no mercado e a ideia que o gás é amigo do clima se coloca no centro da expansão da infraestrutura de gás nas últimas duas décadas” e, a investigação da cientista Rebecca John, Climate Investigations, associada a Rebecca Leber e Davis Allen, PhD, em documentos, pedidos de acesso a registros públicos, comunicações internas da indústria, relatórios confidenciais, artigos científicos e entrevistas com cientistas climáticos, consultores da indústria e ambientalistas. Vale a nota que relatórios e investigações anteriores demonstram o modo como a indústria de petróleo e gás respondeu à poluição por carbono com atraso e negação, sendo esta pesquisa a primeira a traçar resposta da indústria do gás a poluição por metano e contextualizá-la em décadas de engano, incluindo evidências que a indústria foi alertada sobre problemas de poluição por metano em 1968, antes do que relatava. Revisão do Instituto Americano de Petróleo, diz que a indústria foi informada que o metano na atmosfera se relaciona a “campos de petróleo” e “vazamentos no sistema de distribuição de gás” e como sumidouros ambientais naturais seriam “sobrecarregados por emissões excessivas”. Relatório interno da Shell em 1966 indicou que o metano foi liberado em “quantidades  grandes” nos campos de petróleo, em 1968, revisão do Instituto Americano de Petróleo declarou que o metano na atmosfera estava conectado a “campos de petróleo” e infiltração era “improvável”, assim, as empresas de fósseis patrocinaram e promoveram sua própria investigação, fundando entidades como o Gas Research Institute para criar aparência de objetividade e mudar narrativa, quer dizer, o foco era abafar pesquisas que indicavam que o gás poderia ser prejudicar ao ambiente ou saúde humana, conforme sugere o Centro de Integridade Climática. Nos anos 1970, a American Gas Association, grupo comercial que trabalhou com empresas de relações públicas para vender gás como combustível fóssil “limpo” e ecologicamente correto, lançou em 1971 Campanha de relações públicas chamada “Gás, Energia Limpa para Hoje e Amanhã", com relatório de 1972 da American Gas Association, AGA, dizendo que os “benefícios ambientais de fornecimento adequado de gás natural são excelentes”, oferece “resposta positiva” à preocupação sobre o planeta.

O relatório detalha que em 1996 a AGA realizava estudos em conjunto com a Agência de Proteção Ambiental, EPA, EUA, com comunicações internas mostrando que funcionários da EPA falaram que “simplesmente não têm experiência” à revisar de modo independente dados da indústria de gás no estudo, sendo “improvável que encontrassem problemas, mesmo que  existissem.” Publicado com a credibilidade da EPA, o estudo foi utilizado pela indústria do gás para minimizar preocupações com emissões de metano impactando no uso contínuo e crenças sobre o gás natural, quer dizer, o consumo de gás natural nos EUA aumentou desde que a indústria propagou o mito do gás natural "limpo". Em consequência, pesquisa da Data for Progress e CCI constata que 50% dos eleitores prováveis ​​agora consideram o gás natural forma de energia limpa, no entanto, quando foram informados sobre relação do gás natural com o fraturamento hidráulico e engano na identidade "limpa", o apoio geral diminui 46%, quer dizer, 3 em 4 eleitores norte americanos apoiariam ação judicial para responsabilizar empresas de petróleo e gás por enganá-los sobre malefícios do gás natural. A campanha de relações públicas foi eficaz e, na década de 2000, com o advento do fracking, a infraestrutura americana de extração de gás natural se expandiu com força, as empresas que construíam tal infra-estrutura eram, inclusive, elegíveis à subsídios aos combustíveis “verdes” e incentivos fiscais, hoje, o gás natural é classificado como “verde” em pelo menos 4 estados norte americanos, entretanto, a indústria de aparelhos a gás faz lobby contra normas de rotulagem que designem seus produtos como prejudiciais. Enfim, Richard Wiles, presidente do Centro à Integridade Climática, nos explica que  “as petrolíferas e indústria do gás sabiam há décadas que o metano era poluente climático prejudicial, criaram o mito do gás natural 'limpo' à proteger e expandir os negócios, sem considerar saúde pública ou impactos climáticos que sabiam que resultariam" e, conclui, “as autoridades que continuam justificar a dependência do gás natural alegando que é limpo ou seguro ao clima, usam roteiro e a mesma ciência manipulada que executivos do setor de gás e equipes de relações públicas criaram décadas atrás". 

Moral da Nota: o Relatório dos ODS, Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, de 2026, divulgado pela ONU em julho de 2026, diz que entre 2015 e 2024, com base em 'dados relatados pelos países, que perdas econômicas diretas foram em média maiores  a US$ 110 bilhões/ano equivale a 0,28% do PIB dos países declarantes’ em conjunto, observa que, “os números provavelmente subestimam a verdadeira escala quando se  incluem efeitos em cascata e danos nos ecossistemas, aí, perdas por desastres passam dos US$ 2,3 bilhões/ano". Sem considerar população e outros fatores, financeiramente os EUA registraram as maiores perdas econômicas anuais relacionadas ao clima do mundo, inundações, ondas de calor,furacões e incêndios florestais causando bilhões de dólares em danos a cada ano, no entanto, a China acompanha de perto com repetidas inundações, tufões e ondas de calor interrompendo infraestrutura e manufatura, dito, no relatório divulgado em 2024 da Swiss Re, resseguradora suíça que cobre 90% da economia global. A Índia se posiciona entre os países que registram maiores perdas econômicas globais devido alterações climáticas, perdendo 24,7% do PIB até 2070, um dos países mais expostos economicamente a riscos climáticos, conforme diz o Banco Asiático de Desenvolvimento, 2024. O relatório das ODS 2026 mostra que PMA, países menos desenvolvidos, responderam por quase 13% das perdas relatadas globalmente no mesmo período, representaram 1,36% do PIB total, impacto desproporcional de mais de 10 vezes e, conforme o Índice de Risco Climático, CRI, 2026, a Índia experimentou 430 eventos relacionados ao clima entre 1995 e 2024, ou, inundações, ciclones, deslizamentos de terra e ondas de calor afetando 1,3 bilhão de pessoas, causando mais de 80 mil mortes e perdas econômicas superiores a US$ 170 bilhões. Vale notar que os principais países que enfrentam custos devido a inundações frequentes e condições climáticas extremas, segundo o CRI, são Dominica, Mianmar e Honduras e a Índia ocupa o 15º lugar nesta lista, com Vishwas Chitale, da equipe de resiliência climática do Conselho de Energia, Meio Ambiente e Água, CEEW, Índia, instituição política sem fins lucrativos sediada em Nova Déli, diz que, “em 2019, o país perdeu US$ 69 bilhões devido eventos relacionados ao clima, que contrasta com US$ 79,5 bilhões perdidos entre 1998 e 2017.”

quinta-feira, 13 de agosto de 2026

Nuvens de fogo

Ocorreram na Austrália e Califórnia, mas não é a primeira vez que foram registradas na França, mais de 300 mil pessoas na Espanha e França receberam ordens de evacuação depois que incêndios florestais devastarem as nações nos últimos dias e a Espanha declarou emergência nacional, ao passo que, autoridades de Bordeaux alertaram que o incêndio florestal pode continuar arder por vários meses. À medida que continuam as evacuações especialistas alertam que ‘as nuvens de fogo’ tornam os incêndios mais intensos, essencialmente, pirocumulonimbus, ou, nuvens de fogo, ou, tempestade de fogo gigantescas criadas por incêndio florestal, apelidadas pela NASA de ‘dragões cuspidores de fogo’, nuvens criadas pela 1ª vez quando incêndios geram calor fazendo com que o ar suba acima do incêndio, enquanto fumaça, cinzas e vapor d'água entram na atmosfera e, quando o ar se eleva, esfria e o vapor condensa em nuvens. Já foram raras, mas agora aumentaram em frequência por conta de incêndios intensos que criam nuvens de fogo podendo atingir altitudes de 10–15 kms, mais prováveis quando há condições perigosas como altas temperaturas, pouca umidade e ventos fortes, podendo tornar incêndios florestais mais imprevisíveis e perigosos gerando seus próprios raios e provocando mais fogo longe da zona de impacto inicial, além de fazer com que ventos fortes espalhem os incêndios mais rápido. A coordenadora de previsão de incêndio do Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo, ECMWF, Dra. Francesca Di Giuseppe, disse que pirocumulonimbus podem injetar fumaça na troposfera superior ou mesmo estratosfera inferior, em altitudes comparáveis as associadas a erupção vulcânica moderada’, por vezes, nuvens de fogo podem produzir chuva para ajudar extinguir um incêndio. No Verão Negro de 2019 e 2020 na Austrália criaram ‘tempestades de fogo’ extremas ou, seu próprio clima, relatadas na Califórnia no verão de 2021 elevando-se 1,6 kms acima do estado, tornando-se comuns graças às alterações climáticas que criam condições à ocorrência de incêndios florestais e, conforme a Royal Meteorological Society, provavelmente serão mais frequentes à medida que condições mais quentes e secas aumentam risco de incêndios florestais. No entanto, esta é a 1ª vez que nuvens de fogo são vistas na França. Rick McRae, professor adjunto do grupo de pesquisa sobre incêndios florestais da Universidade de Nova Gales do Sul, diz que, ‘é a 1ª vez que a França considera explicitamente o conceito de um piroCb’ e, conclui, ‘se tiveram ou não em alguns dias atrás não é realmente a questão,’ disse, ‘a questão é se haverá um ou vários daqui para frente. 

Ainda no quesito mudanças climáticas, surge a notícia que a Louisiana enfrenta surto de infecções por Vibrio vulnificus, conhecida como bactéria comedora de carne, que normalmente vive em águas costeiras quentes como as encontradas na Grand Isle, na Louisiana. O Departamento de Saúde da Louisiana forneceu notícias sobre o Vibrio vulnificus, ou seja, que houve surto de infecções por Vibrio vulnificus em 2026 e já houveram 9 casos de infecções resultando em intercorrências, hospitalizações e 5 mortes. Representa aumento significativo em relação à média de 7 casos e 1 morte na última década e, pelo aumento do número de casos em relação a década passada foi designado 'surto', sendo que o Vibrio vulnificus é conhecido como bactéria comedora de carne porque é uma das espécies de bactérias que causam fasciíte necrosante, ou, apodrece o tecido que fica abaixo da pele sendo o agente bacteriano mais comum o Streptococcus do Grupo A. Vale a nota que a palavra “fáscia” se refere a fina e extensa camada de tecido que se localiza abaixo da pele e do sufixo “ite”, que significa inflamação e o termo necrosante se refere a palavra morte, daí, o Vibrio Vulnificus pode causar fascite necrosante que se refere a infecção bacteriana grave que causa morte da fáscia e do tecido acima dela, daí o apelido “comedor de carne”.  Tal  evento pode ocorrer quando bactérias “que comem carne” penetram no  organismo através de fissura na pele como arranhão ou picada de inseto, o detalhe é que, são tóxicas, liberam toxinas que impedem o sangue fluir na área danificada levando a morte do tecido ou necrose. A toxicidade pode se espalhar à outras partes do corpo como órgãos importantes, causando danos e a interferência do sangue nos tecidos do corpo é análoga ao corte das principais vias à determinado local, em consequência, cirurgia de emergência se impõe como tratamento para impedir propagação da infecção levando eventualmente à sepse, ou, disseminação da bactéria no organismo, choque, ou, queda de pressão, falência múltipla de órgãos e morte. A fasciíte necrosante não é condição muito comum podendo aumentar a incidência quando da presença de bactérias carnívoras como o Vibrio vulnificus, aumenta em água salgada ou salobra costeira quente entre os meses de maio e outubro e como resultado, pode ser encontrada em mariscos que habitam essas águas. Por fim, sintomas da fasceíte necrosante como febre, calafrios, dores no corpo, náuseas, diarreia ou dor na área infectada, começam em 24 horas pós o Vibrio vulnificus entrar no corpo além de pele descolorida e quente, inchaço, piora da dor e bolhas com líquido sanguinolento ou amarelado. Por fim, mudanças climáticas podem estar levando a cada vez mais casos de Vibrio Vulnificus e, a Louisiana não é o único estado com casos em 2026, a Flórida já teve 2 mortes pela bactéria e o Departamento de Saúde de Maryland teve 29 casos confirmados e 114 prováveis de Vibrio vulnificus até agora e, à medida que a água esquenta, patógenos potenciais crescem e se tornam mais concentrados, podendo causar mais doenças e possivelmente a morte, quer dizer, a continuação das alterações climáticas pode levar a cada vez mais a novos casos  nos próximos anos. Um detalhe, publicação de 2024 no periódico científico PLOS Pathogens chamada Vibrio vulnificus a “organismo sensível ao clima por excelência”, descreveu que alterações climáticas estão tornando a água dos oceanos mais quente aumentando locais onde o Vibrio vulnificus pode crescer e, portanto, onde pode ocorrer infecções.

Moral da Nota: o geógrafo árabe Al-Sharif al-Idrisi na Sicília do século XII desenvolveu uma das obras científicas mais importantes da Idade Média, ou, Nuzhat al-Mushtaq fi Ikhtiraq al-Afaq, ou, o deleite de quem anseia por viajar pelos horizontes, enciclopédia geográfica reunindo mapas e descrições do mundo conhecido. Obra encomendada pelo rei normando Rogério II e desenvolvida ao longo de 15 anos, entre 1138 e 1154 e, para realizá-lo, Al-Idrisi baseou-se em suas viagens, consultou obras de geógrafos anteriores e coletou depoimentos de mercadores, marinheiros e viajantes, comparando informações e descartando relatos contraditórios. Dividiu o mundo em 7 regiões climáticas, cada uma subdividida em 10 seções, resultando em 70 mapas interconectados em que cada um acompanhava informações sobre cidades, rios montanhas, mares, rotas comerciais, condições econômicas e sociais e, cada obra incluía cálculos da circunferência da Terra estando ligada a um globo de prata com um mapa-múndi gravado. O trabalho combinou geografia física, humana e econômica, tornou-se registro da vida, arquitetura e relações comerciais e políticas do século XII, sendo que o Nuzhat al-Mushtaq teve ampla circulação sendo traduzido ao latim e demais línguas europeias utilizadas nos séculos por geógrafos e viajantes, inclusive no Renascimento. Atualmente os manuscritos estão em instituições como a Biblioteca Nacional da França, Biblioteca Bodleiana em Oxford e coleções em Istambul com historiadores como Hussein Mounis, Samuel Parsons Scott e Michele Amari destacando a importância de Al-Idrisi e considerando sua obra como uma conquista da geografia medieval e civilização árabe-islâmica. Nasceu em Celta por volta de 1100 sendo seu nome completo Abu Abdullah Muhammad ibn Muhammad al-Idrisi, viajou por Al-Andalus, Marrocos e Levante antes de estabelecer na corte de Rogério II na Sicília e, além da geografia, cultivou a botânica, medicina, astronomia e literatura e 9 séculos depois, Nuzhat al-Mushtaq continua sendo obra na história da geografia e cartografia e testemunho dos estudiosos árabes no desenvolvimento do conhecimento científico global.