Um dos pontos mais quentes do mundo em termos de crise climática é a Grécia, dito, no relatório Lancet ao alertar que mortes relacionadas ao calor podem chegar a 2 mil por verão até 2040, já que o país enfrenta aumento de temperaturas, seca e doenças, considerando que verões no sudeste europeu tornam-se mais longos e opressivos a cada ano, nas cidades, zonas costeiras, regiões rurais e florestas, com calor persistente remodelando ritmos da vida quotidiana. Modelos climáticos à região indicam tendência à temperaturas acima do normal, impulsionadas por aquecimento oceânico e mecanismos climáticos globais como o El Nino que podem amplificar a anomalia térmica mundial, daí, o aumento constante nas temperaturas anuais observado nos últimos anos, com Christos Zerefos, chefe do Centro de Pesquisa em Física Atmosférica e Climatologia da Academia de Atenas, informando que, “o Mediterrâneo é lugar onde o sol não apenas brilha, mas, molda o clima, a vida e a cultura, luz, que começou queimar de modo que não conseguimos mais controlar, desde o verão de 2023, o planeta ultrapassou limite de 1,5 ºC acima dos níveis pré-industriais, meta do Acordo de Paris”. Enfatiza que a Grécia não é apenas espectador da mudança, mas, “um dos pontos mais expostos do planeta, um dos mais críticos onde o aquecimento atinge duramente e sempre atinge primeiro os mais vulneráveis, ou, idosos, crianças, doentes crônicos e os que não podem se dar ao luxo de refugiar em um quarto fresco”, com pesquisadores da Academia de Atenas e professores da Universidade de Economia e Negócios trabalhando no Comitê de Estudo de Impactos das Mudanças Climáticas do Banco da Grécia, ao analisar dados de mortalidade das 13 regiões do país ao longo de 23 anos, 1999-2021, descobriram que “cada aumento de 1 ºC na temperatura máxima corresponde a aumento de 2% no excesso de mortalidade por causas naturais e 1,9% por doenças cardiovasculares, quer dizer, a morte está 2 dias atrasada como se a onda de calor contabilizasse suas vítimas ao seu próprio ritmo”, disse, o também Secretário-Geral da Academia de Atenas, observando que, a região da Ática apresenta maior sensibilidade. Emitiu alerta que “se a trajetória não mudar até 2040, espera-se que cada verão custe entre 1.400 e 2 mil vidas humanas adicionais, perda estimada em 5 a 8 bilhões de euros com base no valor estatístico europeu de uma vida, quer dizer, a natureza fala em números, somos obrigados a ouvir”, valendo dizer que, são alarmantes as conclusões da 3ª edição do relatório Lancet Countdown que documenta mudanças na saúde pública, coesão social e economia, ligadas à crise climática em 55 países da região europeia. Coloca quase toda a Grécia entre as zonas europeias com maior aumento na mortalidade relacionada ao calor na maior parte do país, quando são registadas mais de 120 mortes adicionais por milhão de habitantes/ano no período 2015-2024, comparados com a década 1991-2000, sendo que, Ática é particularmente atingida, em que, na maior parte da região, o número é de 100 a 109 mortes adicionais formando arco geográfico envolvendo parte central da prefeitura e estendendo-se das fronteiras sudoeste com Coríntia em direção ao norte, passando pelos subúrbios e continuando até a Ática Oriental e Sudeste e se enquadrando na categoria mais alta com mais de 120 mortes. O relatório mostra que na Europa, 62.775 mortes foram atribuídas ao calor em 2024 com projeções indicando aumento até 2050 com a mortalidade relacionada ao calor aumentando em quase todas regiões estudadas e evidenciando os maiores aumentos no sul e sudeste europeu, não é por acaso, que os avisos de calor quadruplicaram nos últimos anos. Por fim, documenta o agravamento na Grécia das condições de seca, experimentando até 2,5 meses de seca extrema/ano enquanto outras partes de Creta registram períodos de até 2 meses em Heraklion e Rethymno e um mês em Chania, sendo que no geral, na década de 2015-2024, 936 das 1.435 regiões europeias sofreram secas de verão de intensidade extrema ou excepcional enquanto 983 registraram durações mais longas comparadas à linha de base de 1981-2010. Acrescente-se consequências ao local de trabalho com horas perdidas devido ao estresse térmico reduzindo oferta de mão-de-obra em 24 horas por trabalhador e, por ano na Europa no período 2000-2023 comparados a 1965-1994, sendo vistos declínios acentuados na atividade laborativa registrados em Atenas, Ilhas Canárias e Chipre e no restante do continente o número de horas de exposição ao calor tornou insegura atividade física ligeira ou moderada. Enfim, aceleraram a propagação de doenças infecciosas transmitidas por mosquitos com a dengue aumentando 297% no período 2015-2024 comparados a 1981-2010, e 74% no Sul da Europa, além do vírus do Nilo Ocidental com 1.112 casos em 2025, acima da média da década anterior com tendência observada à chikungunya e Zika, também transmitidos por mosquitos. O relatório demonstra que os impactos se distribuem de forma desigual com famílias de baixa renda enfrentando maior risco de insegurança alimentar devido ondas de calor e seca, trabalhadores ao ar livre mais expostos ao estresse térmico, maior exposição a incêndios florestais e menos acesso a espaços verdes, encerrando pela necessidade de transição à economia neutra em carbono, observando paradoxo em que ao mesmo tempo que o uso de renovável cresce, os subsídios aos fósseis aumentam em 2023 e 2024 respondendo à crise energética desencadeada pelas guerras, quer dizer, só em 2023, subsídios líquidos aos combustíveis fósseis ultrapassaram 10% dos gastos nacionais com saúde em 12 países europeus e ultrapassando orçamentos inteiros à saúde em 4 deles.
Estudo climático classifica os gregos entre os países mais vulneráveis ao calor da Europa, prevendo ondas de calor mais longas e frequentes à medida que o aquecimento global acelera no continente, esperando-se que o país tenha experiências cada vez mais frequentes e ondas de calor prolongadas até fins do século e, o estudo da Reinders Corporation classifica a Grécia em 7º lugar na Europa em termos de vulnerabilidade às ondas de calor, sublinhando impacto das alterações climáticas no sul da Europa. Estima que o país enfrentará média de 2 grandes ondas de calor/ano até 2100, cada uma levando cerca de 20 dias com temperaturas médias de 36,92°C, embora esteja no topo da lista, a pontuação geral é moderada por intensidade de temperatura menor comparada às ondas de calor projetadas à Europa Oriental e Rússia, sendo que a Reinders Corporation analisou dados de modelagem climática à todas nações europeias, avaliando frequência de ondas de calor, duração cumulativa e temperaturas médias, fatores, combinados em pontuação única de vulnerabilidade identificando 10 países europeus que serão mais duramente atingidos por calor extremo nas próximas décadas. Daí, a observação que a França lidera a lista com pontuação de vulnerabilidade mais elevada, seguida por Rússia, Romênia, Moldávia, Bulgária e Turquia, ao passo que a pontuação grega de 58,38 coloca-a à frente de países como Ucrânia, Geórgia e Itália, enquanto na Europa Oriental surgem Romênia, Moldávia e Bulgária classificadas entre as 5 primeiras, destacando que, embora a Grécia tenha uma das maiores durações de ondas de calor, projetadas temperaturas médias mais baixas a mantêm na faixa intermediária entre nações mais vulneráveis da Europa, aparecendo em 7º no ranking com, Gerrit Jan Reinders, CEO e especialista em dados climáticos da Reinders Corporation, esclarecendo que, “apesar de ter a 2ª maior duração de onda de calor a intensidade da Grécia é menor que a esperada na Europa Oriental e Rússia.” Vale a nota que sinais de alerta da aceleração das alterações climáticas são visíveis no mundo, por exemplo, atrasos sazonais incomuns e mudanças ecológicas, na última nevasca no Monte Fuji, Japão, e o aparecimento sem precedentes de mosquitos na Islândia, com o estudo concluindo que, a gravidade da onda de calor resulta do efeito combinado de frequência, duração e intensidade da temperatura, não de um único fator e, à medida que a Grécia aquece, investigadores alertam que o país deve se preparar para desafios ambientais, econômicos e de saúde pública ao longo do século XXI.
Moral da Nota: o ano de 1987 é considerado por onda de calor implacável que ceifou mais de 1.300 vidas na Grécia, daí, o país como grande parte do mundo, enfrenta consequências das alterações climáticas, ou, ondas de calor mais frequentes e intensas, incêndios florestais mais longos, padrões climáticos imprevisíveis e cidades vulneráveis no limite. A Grécia traz de volta memórias de um desastre que marcou a nação há quase 4 décadas, ou, a onda de calor mortal de julho de 1987 que por 9 dias, de 20 a 28 de julho, as temperaturas ultrapassaram 40°C transformando cidades gregas em fornos e casas em armadilhas, um período com um dos desastres naturais mais mortais da história moderna nacional, 1.300 mortes, em sua maioria idosos, pobres ou vulneráveis, que morreram silenciosamente, muitas vezes só, em apartamentos sufocantes, sem ar condicionado ou acesso a cuidados básicos de saúde, naquela época, o ar condicionado doméstico era luxo, não norma, infraestrutura pública despreparada e, a conscientização climática, nos primórdios. Relatório da TA NEA em 22 de julho de 1987 informava que o serviço meteorológico não previu nenhum alívio imediato, dizendo que, “a onda de calor contribuiu à morte de 4 pessoas, 2 em Atenas e 2 em Volos, todas sofrendo problemas cardíacos, outros, na maioria idosos, foram hospitalizados com problemas cardiorrespiratórios”. Os necrotérios atingiram capacidade máxima em poucos dias, funerárias não conseguiram acompanhar, com o relatório esclarecendo que, “um problema surgiu e espera-se que cresça nos próximos dias”, concluindo que, “necrotérios dos hospitais estão lotados e questões similares são relatadas em necrotérios por todo o país.” Avalia que “o único tema de conversa hoje em dia é o calor insuportável e implacável, as outras questões foram deixadas de lado, mais uma vez, a Grécia ganha medalha de ouro, não no atletismo, mas, na desorganização, o país revela-se despreparado à qualquer tipo de desastre natural, em muitas áreas, nem mesmo água encanada estava disponível.” Enfim, na década de 1980, os gregos estavam começando entender o custo ambiental da rápida urbanização, da disseminação descontrolada do concreto, poluição sufocante, ausência de espaços verdes, no entanto, nos anos que se seguiram, pouca coisa mudou, os avisos não foram ouvidos, sendo que hoje, a Grécia como grande parte do mundo enfrenta alterações climáticas, ou, ondas de calor mais frequentes e intensas, épocas de incêndios florestais mais longos, padrões climáticos imprevisíveis e cidades vulneráveis no limite.