quinta-feira, 20 de março de 2025

O caso italiano

A região de Veneto, nordeste da Itália, possivelmente é a maior contaminação por PFAS, perfluoroalquiladas e polifluoroalquiladas, do mundo, já que em 2013, produtos químicos foram encontrados na água potável de uma “área vermelha” abrangendo 30 municípios nas províncias de Vicenza, Verona e Pádua, com a professora de epidemiologia na Universidade de Pádua dizendo que “o que aconteceu em Veneto é um desastre”. Em 2017, um plano de vigilância foi estabelecido na região ainda faltando dados publicados sobre a incidência e prevalência de doenças na área, conforme a professora de saúde pública na Universidade de Pádua esclarecendo que a análise retrospectiva de registros médicos e dados de saúde permitirá pesquisadores estabelecerem vínculos entre a exposição ao PFAS e resultados de saúde específicos, evidências que podem informar intervenções de saúde pública direcionadas e estratégias de prevenção. PFAS são grupo de produtos químicos usados ​​desde a década de 1940 por conta das propriedades à prova d'água, resistentes à gordura e ao calor, presentes em produtos do dia a dia como panelas antiaderentes, Teflon, roupas impermeáveis, Gore-Tex, embalagens de alimentos e espumas de combate a incêndio, sendo que não se decompõem facilmente e podem se acumular na água, solo, em animais e humanos e, conforme o gerente de política de poluição zero da Zero Waste Europe, “são feitos para serem resistentes” e, como são altamente persistentes se acumulam ao longo do tempo, estão disseminados no ambiente tornando difícil distinguir níveis de fundo das fontes de contaminação localizadas, concluindo que, “não sabemos se estão em todos lugares, mas em todos lugares que olhamos, os encontramos”.

O caso Veneto remete ao fato que durante décadas, moradores beberam e cozinharam, sem saber, com água contaminada com PFAS, enquanto a poluição foi rastreada até a fábrica química Miteni em Trissino, Vicenza, que fabricou PFAS da década de 1960 até seu fechamento em 2018, que despejou águas residuais no aquífero Almisano, segunda maior fonte de água doce da Europa, tornando a crise aparente em 2013, quando o Conselho Nacional de Pesquisa da Itália revelou níveis altos de PFAS em águas subterrâneas e rios, contendo concentrações mil vezes acima dos limites internacionais de segurança e com Investigações posteriores revelando que 350 mil pessoas viviam na área contaminada, enquanto 120 mil moradores foram considerados altamente expostos devido ao consumo prolongado de água poluída. “Em resposta, em 6 meses, construíram sistemas de dupla filtragem de carbono nos suprimentos de água afetados, com moradores aconselhados a beber água engarrafada e evitar consumo de produtos locais", além de Veneto lançar programa de biomonitoramento entre 2015 e 2016 incluindo estudo que testou 507 pessoas, de áreas contaminadas e zonas limpas, para comparar níveis de exposição a PFAS, com resultados mostrando que os moradores da zona vermelha tinham 8 vezes mais PFAS no sangue que aqueles em áreas não contaminadas. Em 2017, o governo regional introduziu Plano de Vigilância Sanitária abrangente com alvo em 90 mil moradores da área vermelha e ex-funcionários da Miteni submetidos a exames de sangue para medir 12 produtos químicos PFAS diferentes, com exames para problemas renais, hepáticos, metabólicos e de tireoide, em 2022, mais de 55 mil pessoas participaram e 60% mostraram sinais de danos orgânicos ou metabólicos relacionados à exposição ao PFAS, ao passo que estudo separado de 2022 confirmou quão o PFAS havia se infiltrado na comunidade e, dentre os 105 mil residentes testados, o PFOA, tipo mais comum de PFAS, foi encontrado em amostras de sangue em níveis 20 vezes maiores que a média italiana com outros compostos PFAS incluindo PFOS e PFHxS como prevalentes. Pesquisas recentes revelam que a área vermelha de Veneto sofreu excesso de 3890 mortes entre 1985 e 2018, ou seja, uma morte adicional a cada 3 dias por doenças cardiovasculares, câncer renal e testicular, todas as doenças ligadas à exposição ao PFAS, com preocupações sobre o impacto PFAS na saúde reprodutiva, em que placenta e feto absorvem o PFAS da mãe, considerando que mulheres que engravidaram têm menor contaminação por PFAS do que aquelas que não tiveram filhos, ao passo que seus filhos podem experimentar efeitos da exposição pré-natal ao longo de suas vidas, valendo concluir que um estudo dinamarquês ainda não publicado descobriu anteriormente que a maior exposição materna ao PFAS foi associada à menor motilidade dos espermatozoides e pior morfologia em adultos jovens.

Moral da Nota: a psicóloga e pesquisadora da Universidade de Pádua, esclarece que além das preocupações com a saúde física, moradores enfrentam desafios psicológicos ao lidar com implicações da exposição prolongada a esses produtos químicos eternos, com estudo qualitativo em pais nas áreas mais afetadas revelou jornada que passa por fases de Choque e descrença, com a percepção que o ambiente levou a sentimentos de traição e vulnerabilidade, outra questão foram Mudanças no estilo de vida para minimizar exposição incluindo usar água engarrafada, evitar produtos cultivados localmente e nadar na piscina local enquanto alguns se mudaram.  A convivência com PFAS, com o tempo, é frequentemente acompanhada por sensação persistente de incerteza, além de preocupações sobre efeitos de longo prazo na saúde, especialmente em relação ao bem-estar de crianças expostas desde tenra idade, sendo que a natureza invisível da contaminação por PFAS tornou desafiador aos moradores avaliarem riscos gerando ansiedade, pois a comunidade ficou se perguntando sobre potenciais implicações à saúde que poderiam surgir anos depois. A contaminação por PFAS é generalizada no mundo, na Europa, pontos críticos conhecidos incluem partes da Bélgica, em torno de Antuérpia, onde PFAS de plantas químicas poluíram solo e água, na Holanda, altos níveis de PFAS foram detectados em Dordrecht, ligados a local de fabricação de produtos químicos, na Alemanha, França e Reino Unido foram relatadas contaminação em áreas industriais e locais militares onde espumas de combate a incêndio foram utilizadas, enquanto globalmente, a poluição por PFAS é preocupação nos EUA, especialmente Michigan, Carolina do Norte e proximidade a bases militares, na Austrália, na área rural de Nova Gales do Sul e partes da China, práticas de fabricação e descarte de resíduos levaram a contaminação ambiental. Por fim, em 2016, a Agência Europeia do Meio Ambiente, a Comissão Europeia e 28 países participantes, 24 estados-membros da UE mais Noruega, Suíça, Islândia e Israel, lançaram o projeto Human Biomonitoring for Europe, HBM4EU, que avalia exposição humana a produtos químicos, incluindo PFAS, medindo níveis em amostras humanas como sangue e urina, envolvendo mais de 100 organizações, incluindo órgãos nacionais de saúde pública, institutos de pesquisa e agências reguladoras. Pesquisa, biomonitoramento e esforços políticos, buscam mensurar as consequências a longo prazo na saúde da exposição ao PFAS, ainda se revelando, e as comunidades afetadas continuarão lidar com isso por gerações, no entanto, a ação regulatória está se tornando mais rigorosa e a conscientização médica melhorando, mas, aos já expostos, o dano está feito, sendo que o desafio é mitigar danos futuros, dar suporte às populações afetadas e garantir que lições de casos como o de Veneto promovam proteções contra os produtos químicos eternos.