sábado, 8 de novembro de 2025

Poluição Radioativa

A US Navy levou 11 meses para alertar moradores próximos aos Estaleiro Naval de Hunters Point em São Francisco, que o plutônio no ar havia excedido padrões de segurança, quando a antiga base naval conduziu estudos sobre impacto de armas nucleares pós 2ª Guerra, deixando o local contaminado com material radioativo que ainda está sendo limpo. Após 50 anos que os EUA detonaram 67 armas atômicas no Pacífico, a antiga base naval carregando legado nuclear, quando o Departamento de Saúde de São Francisco informou que teste realizado em novembro de 2024 no estaleiro naval de Hunters Point mostrou que níveis de plutônio-239 no ar excederam "nível de ação" da Marinha, exigindo investigação por parte dos militares. Hunters Point, península que se projeta na Baía de São Francisco, foi laboratório militar ao estudar efeitos de armas nucleares de 1946 a 1969, embora a pesquisa se concentre em como descontaminar navios de guerra e equipamentos americanos alvejados por bombas atômicas, com experimentos deixando parte do estaleiro contaminada por substâncias radioativas e produtos químicos tóxicos. A Marinha busca limpar a área visando reurbanizá-la com moradias e áreas verdes, no entanto, líderes comunitários locais dizem que a remediação é desorganizada e falta transparência colocando em risco saúde e segurança dos moradores ao lado do antigo estaleiro de Bayview-Hunters Point.

O Plutônio-239 é isótopo radioativo e subproduto de explosões nucleares cujas concentrações elevadas de novembro de 2024 vieram da área nordeste do estaleiro, conhecida como Lote C, com autoridades navais e especialistas em saúde insistindo que os níveis de radiação detectados no local, embora acima do nível de ação da Marinha, não representavam ameaça iminente ou substancial à saúde pública, sendo que a exposição a esse nível de plutônio-239 diariamente por um ano seria menos de um décimo da dose de radiação de uma radiografia de tórax, conforme porta-voz da Marinha. Em comunicado ao The Times, a Marinha disse que a “carta do Departamento de Saúde de São Francisco se refere a uma única amostra de ar atípica que detectou plutônio-239 acima do nível de ação regulamentar” e, conclui, “os níveis de ação regulamentares são deliberadamente e conservadoramente estabelecidos abaixo dos níveis de preocupação à saúde e uma única detecção de Pu-239 nesse nível não representa risco à saúde humana ou à segurança pública.” Afirmou ter coletado mais de 200 amostras de monitoramento do ar na Parcela C desde que iniciou o trabalho de campo no local, em 2023, sendo que a amostra de novembro de 2024 foi a única com níveis elevados de plutônio-239, já que os isótopos de plutônio emitem radiação alfa relativamente benigna fora do corpo pois não atravessa objetos sólidos, no entanto, se essas partículas radioativas forem inaladas podem danificar os pulmões e aumentar risco a longo prazo de desenvolver certos tipos de câncer, dados, do Centro de Controle e Prevenção de Doenças, CDC, com Kathryn Higley, professora de ciência nuclear da Universidade Estadual do Oregon, dizendo que, “o que preocupa em relação aos emissores alfa é a entrada no corpo, por inalação, ingestão ou injeção acidental quando alguém se corta e a radiação penetra no corpo”. Vale a Nota que em 2000, a EPA, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, advertiu oficiais da Marinha por negligenciarem dever de informar moradores sobre incêndio em aterro sanitário perigoso em Hunters Point, em 2017, funcionários da consultoria Tetra Tech, contratados pela Marinha para avaliar níveis de radiação em Hunters Point, se declararam culpados de falsificar dados em tentativa de evitar necessidade de realizar limpeza adicional em áreas do estaleiro, lembrando que, contaminantes radioativos no ar em qualquer nível, agrava riscos à saúde de Bayview-Hunters Point, que enfrenta alta exposição a partículas tóxicas de diesel de caminhões que trafegam nas rodovias próximas e navios cargueiros que visitam o Porto de São Francisco. Por fim, a Hunters Point Biomonitoring Foundation, organização sem fins lucrativos, encontrou níveis de substâncias tóxicas em exames de urina realizados em moradores do bairro, especialmente idosos e os que residem próximos ao antigo estaleiro naval e Phil Rutherford, especialista em risco radiológico e consultor corporativo, considerou a notificação tardia "inaceitável", mas disse que a carta do departamento de saúde de São Francisco foi "tempestade em copo d'água", considerando os baixos níveis de material radioativo.

Moral da Nota: o Hunters Point foi base onde navios eram construídos, reparados e mantidos na 2ª Guerra Mundial adquirido pela Marinha em 1940 pós término da guerra, tornou-se sede do Laboratório de Defesa Radiológica da Marinha, instalação de pesquisa militar dedicada investigar efeitos de armas nucleares e segurança radiológica. Uma frota de navios de guerra americanos com armas nucleares foi bombardeada pela Marinha dos EUA como parte de testes atômicos nas Ilhas Marshall, sendo que os navios irradiados foram rebocados à Hunters Point e utilizados como material e equipamento para que cientistas testassem métodos de descontaminação. O estaleiro foi desativado em 1974 sendo identificados produtos químicos perigosos e contaminação radiológica de baixo nível, que levou a EPA, Agência de Proteção Ambiental dos EUA, incluir o local em 1989 na lista do Superfund, programa do governo norte americano, criado pela lei CERCLA, Comprehensive Environmental Response, Compensation, and Liability Act, de 1980, para limpar locais com resíduos tóxicos abandonados ou que ameaçam a saúde pública e meio ambiente. Esforços de limpeza foram liderados pela Marinha, escavando solo contaminado e demolindo edifícios com área predominantemente residencial da base, Área A, transferida à São Francisco e reurbanizada com casas geminadas e condomínios com coletivo de 300 artistas vivendo e trabalhando em antigos prédios navais. Recuperou objetos radioativos, incluindo mostradores e marcadores de convés revestidos com isótopos para proporcionar efeito luminescente, mas, a diretora médica da fundação de biomonitoramento disse ter observado estoques de solo contaminado em áreas sem cerca de proteção para impedir que os contaminantes se espalhem para fora do local, no entanto, áreas de limpeza, incluindo o Lote C, estão cercadas e apenas pessoas com credenciais autorizadas têm permissão para entrar na propriedade.