quarta-feira, 3 de setembro de 2025

Enigma

Pesquisadores do Krembil Brain Institute apresentaram hipótese que  o Alzheimer pode não ser, essencialmente, doença cerebral, mas  doença autoimune, conceito que nos obrigaria repensar não apenas teorias, mas estratégias terapêuticas utilizadas considerando que durante décadas, a doença de Alzheimer foi considerada o maior enigma da neurologia com milhões ao redor do mundo sofrendo da forma de demência que, com o tempo, apaga memórias, desorienta identidades e desconecta de entes mais próximos, no entanto,  movimento científico questiona fundamentos que pensávamos conhecer. A maioria das pesquisas sobre Alzheimer gira em torno da proteína chamada beta-amiloide em teoria dominante que sustenta que a proteína se acumula no cérebro formando placas tóxicas que danificam neurônios e causam demência, considerada abordagem clássica ou hipótese beta-amilóide, tão poderosa que motivou investimentos em medicamentos projetados para eliminar as placas, um deles, o controverso aducanumab aprovado pelo FDA em 2021 apesar de resultados inconclusivos, com especialistas considerando passo arriscado, daí, as dúvidas aumentaram quando a Science relatou em 2022 que um dos principais estudos sobre beta-amiloide pode ter sido baseado em dados manipulados. Em consequência surge novo ponto de partida baseado no sistema imunológico do cérebro, inserido na metáfora que propõe um sistema de alarme residencial que, em vez de detectar ladrões, ataca os moradores, esta é a proposta em questão cujo modelo, o beta-amiloide, não seria  agente tóxico anômalo, mas proteína natural parte do sistema imunológico do cérebro cuja função seria proteger o tecido cerebral de infecções ou lesões, no entanto,  há um problema, quando não consegue diferenciar entre a célula cerebral e a bactéria, erroneamente  ataca o próprio cérebro, mal-entendido molecular, segundo pesquisadores, que transformaria Alzheimer em doença autoimune, onde o sistema imunológico se torna o agressor. Por exemplo, quando sofremos uma pancada no joelho, o corpo responde com inflamação, ou, reação do sistema imunológico para proteger e reparar semelhante ao que acontece no cérebro pós trauma ou infecção, quer dizer, uma resposta imunológica é ativada, a questão  é que o cérebro é um órgão delicado e, se essa reação for prolongada ou desregulada pode  causar danos em vez de curar, em suma, o interessante sobre essa teoria é que ela não nega a presença do beta-amiloide mas dá lhe um novo papel, ou, de protetor equivocado, em vez de destruidor original.

Se o Alzheimer for doença autoimune, terapias desenvolvidas até o momento, focadas na eliminação das placas beta-amiloides, estariam agindo no sintoma, não na causa, tentativa de consertar um vazamento secando o chão sem fechar a torneira, no entanto, não se trata de aplicar medicamentos imunossupressores como os usados ​​na artrite pois o cérebro é ecossistema único, com equilíbrio  delicado que qualquer intervenção requer precisão, considerando a crença  que a chave é modular resposta imunológica do cérebro e não suprimi-la, algo como ensinar o sistema imunológico não confundir amigo com inimigo. Valendo dizer que há outras linhas de pesquisa que relacionam Alzheimer com disfunções nas mitocôndrias, as "baterias" celulares que fornecem energia ao cérebro, infecções bacterianas crônicas, especialmente de origem oral, desequilíbrios em metais como zinco, cobre ou ferro que podem alterar  processos neuronais, podendo ser complementares com múltiplos fatores convergindo à um único resultado, ou, perda progressiva de memória e identidade. Padrões pré-Alzheimer descobertos como identificar o risco antes dos primeiros sintomas levam detectar a patologia quando faculdades cognitivas já foram perdidas é como apagar incêndio que consumiu boa parte da floresta, portanto, descobertas  da UCLA Health marcam virada no modo como antecipamos a doença neurodegenerativa com registros médicos eletrônicos, cientistas identificaram trajetórias diagnósticas que levam ao Alzheimer, ou seja, rotas progressivas nas quais  problemas de saúde aparecem em sequência formando padrões que, quando observados a tempo, podem servir como alerta. Fatores de risco individuais, como hipertensão, diabetes ou depressão valem, no entanto, estudo publicado na eBioMedicine propõe abordagem em observar sequência de diagnósticos que ocorrem ao longo do tempo e, que, juntos, têm valor preditivo maior que a condição isolada,  daí,  via da saúde mental em que transtornos psiquiátricos, depressão ou ansiedade, ao longo do tempo levam ao declínio cognitivo em histórico de transtornos psicológicos ou passado por estresse, outro fator é a via da encefalopatia em que sinais de disfunção cerebral são observados como distúrbios de equilíbrio, desorientação ou problemas neurológicos vagos, casos em que o declínio não começa com a memória mas com alterações que ganham terreno, a seguir, a via do comprometimento cognitivo leve com perda progressiva de memória e funções executivas sem atingir limiar ao diagnóstico de Alzheimer, grupo, particularmente importante porque oferece janela à intervir antes que a doença progrida e, por fim, a via vascular em que doenças cardiovasculares como hipertensão, derrame ou diabetes abrem caminho ao declínio cognitivo. Descoberta  reveladoras do estudo é que a ordem que  problemas de saúde se apresentam importam, por exemplo, a hipertensão precede depressão, e, essa combinação, nessa ordem , aumenta  o risco de desenvolver Alzheimer rompendo o conceito que fatores de risco se comportam como peças soltas, em vez disso, agem como dominós em que  uma condição leva a outra e, compreender essa dinâmica, abre possibilidades de prevenção.

Moral da Nota:  questão bem atual é que o 14º Dalai Lama celebra  90 anos havendo tensão sobre como o próximo líder espiritual tibetano será selecionado, com o governo chinês sugerindo que quer mais poder sobre quem é o escolhido, no entanto, o atual Dalai Lama, insiste que o processo de sucessão seja liderado pelo Gaden Phodrang Trust, sediado na Suíça, que administra seus negócios e, ao longo do século XX, os tibetanos lutaram para criar estado independente, enquanto a terra natal era disputada por Rússia, Reino Unido e China e, em 1951, líderes tibetanos assinaram tratado com a China permitindo presença militar no Tibete, daí, o estabelecer Região Autônoma do Tibete em 1965,  significando que o Tibete é uma região autônoma dentro da China, na prática, controlado, com governo no exílio, sediado na Índia, buscando o Tibete estado independente. A importância do Tibete à China decorre dos recursos hídricos em que o acesso a mais água é visto como cada vez mais importante ao amplo impulso em direção à autossuficiência, imperativo diante das mudanças climáticas, por exemplo, o rio Mekong nasce no Tibete e flui pela China e, ao longo das fronteiras de Mianmar e Laos chega à Tailândia e Camboja, constituindo o 3º maior rio da Ásia, crucial, as economias do sudeste asiático estimando-se que sustente 60 milhões de pessoas. Controlar o abastecimento de água particularmente através da construção de represas no Tibete, aumenta tensões regionais, em que 50% do fluxo ao Mekong foi cortado em 2021 pós construção de represa chinesa, causando ressentimento de outros países que dependiam da água, no entanto, iniciativas de outras nações para controlar o acesso ao abastecimento regional de água nos últimos anos mostram como a água é ferramenta de negociação, já que, controle do Tibete permite à China estratégia semelhante que concede a Pequim influência em negociações com Índia  e outros governos, considerando ainda que depósitos significativos de lítio do Tibete são cruciais às cadeias de suprimentos chinesas particularmente na indústria de veículos elétricos. 

Rodapé: sob o olhar de Nash na perspectiva da teoria dos jogos, a abordagem como se fosse um jogo de ultimato, quer dizer, "esta é a oferta final, aceitar ou nada", funciona em vantagem dominante na negociação, não em campo de jogo mais ou menos nivelado, ou, onde nenhum acordo é o pior resultado à quem propõe, quer dizer, a realidade da negociação entre norte americanos e chineses ou demais partícipes, se insere em modelagem de algum modo de jogo repetido, ou, um dilema do prisioneiro repetido, sendo a melhor estratégia na forma repetida é, cooperar, mesmo, que a estratégia dominante na forma única seja desertar, em suma , suspeita-se que chineses,  norte americanos e outros players, estejam modelando resultados como jogos diferentes, metas diferentes, ou, diferentes medidas para "vencer".