segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Pior Cenário

As RCPs, Trajetórias de Concentração Representativas, são conjunto de trajetórias de concentração e emissões de gases efeito estufa, concebidas para apoiar pesquisas sobre impactos e potenciais respostas políticas às mudanças climáticas, abrangem níveis de emissões radiativas associados a cenários de emissões publicados na literatura. A RCP 8.5 corresponde a trajetória de altas emissões de gases efeito estufa comparadas a literatura sobre cenários, portanto, ao limite superior das RCPs e, a  RCP8.5, é cenário denominado "linha de base" que não inclui nenhuma meta específica de mitigação climática, sendo que, emissões e concentrações de gases efeito estufa nesse cenário aumentam ao longo do tempo levando emissão radiativa de 8,5 W/m² no fim do século. Fatores determinantes do cenário RCP8.5 como tendências demográficas e econômicas ou suposições sobre mudanças tecnológicas, baseiam-se na narrativa revisada e ampliada do cenário A2 do IPCC enquanto premissas e resultados do cenário RCP8.5 derivam do chamado cenário A2r selecionado na literatura para servir de base ao RCP8.5, embora premissas e resultados do cenário RCP8.5 estejam documentados, a revisão das principais características do cenário em relação ao posicionamento no contexto mais amplo da literatura sobre cenários foi pertinente. Melhorias e extensões metodológicas necessárias para tornar o RCP8.5 adequado ao propósito principal, ou seja, servir como entrada ao Projeto de Intercomparação de Modelos Acoplados Fase 5, CMIP5 da comunidade climática, constitui elemento no desenvolvimento da próxima geração de projeções climáticas ao futuro 5º Relatório de Avaliação, AR5, do IPCC. As melhorias metodológicas do RCP8.5 desde a publicação original do cenário A2r incluem representação explícita da legislação de qualidade do ar atual planejada à projeção das emissões regionais de poluentes atmosféricos, além de abordagens de redução de escala às emissões de poluentes que consideram as mudanças dinâmicas nas relações entre exposição e mitigação, e, contabilização mais refinada das categorias de uso da terra à representação espacial da transformação, incluindo, em particular, nova definição às pastagens.

O artigo RCP 8.5 'Um cenário de emissões comparativamente elevadas de gases efeito de estufa', Keywan Riahi e cols, resume características do cenário RCP8.5, ao combinar suposições sobre alto crescimento populacional e renda lenta com taxas modestas de mudanças tecnológicas e melhorias na intensidade energética, levando, a longo prazo, a demanda de energia e emissões de GEE na ausência de políticas de mudança climática e, ao comparar o conjunto de RCPs, Vias de Concentração Representativas, o RCP8.5 corresponde à via com maiores emissões de gases de efeito estufa. Ao utilizar a Estrutura de Avaliação Integrada do IIASA e o modelo MESSAGE no desenvolvimento do RCP8.5, o artigo focou 2 extensões comparadas com cenários anteriores, ou, desenvolvimento de projeções de poluição do ar espacialmente explícitas e melhorias nas projeções de mudanças no uso e cobertura da terra, além de explorar cenários que usam RCP8.5 como linha de base assumindo diferentes graus de políticas de mitigação de gases efeito estufa à reduzir emissões radiativas. A análise indica que mudanças na oferta e procura global de energia induzidas por política climática, podem levar a co-benefícios à prioridades políticas como a poluição atmosférica local enquanto a trajetória global de emissões RCP8.5 de 3 °C cancela os benefícios das reduções de emissões europeias na qualidade do ar e a previsão dos custos de redução das projeções climáticas do RCP sob limites de aquecimento 2°C na África e Oriente Médio. O cenário RCP8.5, em comparação a literatura sobre cenários, representa um cenário de altas emissões sem alterações significativas enquanto trajeto de desenvolvimento socioeconômico é caracterizado por taxas lentas de desenvolvimento econômico com convergência limitada entre regiões, um rápido crescimento populacional à níveis comparativamente altos e ritmo relativamente lento de mudança tecnológica. A última premissa se reflete nas modestas taxas de melhoria da intensidade energética do cenário que impulsiona demanda de energia ao extremo superior da literatura sobre cenários, considerando que a matriz energética primária do RCP8.5 é dominada por combustíveis fósseis levando à extração de grandes quantidades de recursos de hidrocarbonetos não convencionais, além das reservas hoje extraíveis. Quer dizer, as emissões de GEE crescem 3 vezes ao longo do século como resultado da alta demanda e alta intensidade de combustíveis fósseis do setor energético, bem como do aumento da população e da consequente alta demanda por alimentos. Daí, resultados indicarem que implementação bem-sucedida das medidas de controle de poluentes hoje legisladas reduziria as emissões globais de poluentes no curto prazo, por exemplo, reduções globais de 25% nas emissões de SO2 entre 2000 e 2030, tendência, que ocorre apesar da intensidade de GEE do RCP8.5, ilustrando a possibilidade de dissociar emissões de poluentes atmosféricos dos gases efeito estufa através de tecnologias de tratamento de efluentes. Os resultados da análise de mitigação indicam ser tecnicamente possível reduzir as emissões de GEE do RCP8.5 à níveis comparáveis ​​aos dos outros RCPs e, ao contrário de estudos anteriores, possível mesmo à meta de emissão mais rigorosa de 2,6 W/m², condicionada à viabilidade de mudanças drásticas no sistema energético em comparação a trajetória de desenvolvimento do RCP8.5, acelerando melhorias na intensidade energética em 2 vezes e a intensidade de carbono em até 6 vezes ao longo do século. Da perspectiva política, a análise é potencial significativo da mitigação climática à reduzir emissões de poluentes, cujos resultados, indicam a importância de melhor integração das prioridades políticas locais, como saúde e poluição do ar, no debate global sobre mitigação climática.

Moral da Nota: a eliminação do RCP8.5 ‘deve-se à rápida transição às energias renováveis em vários países, particularmente China, hoje, número um, em termos de emissões de carbono’, daí, cientistas do clima divulgarem novo conjunto de cenários globais de emissões que servirão de base às pesquisas climáticas nos anos que se avizinham, incluindo o próximo 7º relatório de avaliação do IPCC da ONU. O pior cenário que colocaria o mundo em caminho à experimentar aquecimento acima de 4°C até fins do século foi oficialmente aposentado pós 15 anos, chamado RCP8,5, cenário de altas emissões considerado implausível na última revisão devido à rápida expansão de  renováveis e países que implementam políticas climáticas, com cientistas dizendo que a ação climática que elimina o ‘cenário apocalíptico’ é encorajadora pois significa que consequências extremas associadas aos 4° a 5° C de aquecimento podem agora ser evitadas. Alertam que o planeta está a caminho de sofrer mudanças climáticas drásticas sob as políticas atuais, sendo o mais preocupante cenários que aderem às metas do Acordo de Paris já não possíveis sem ultrapassar limites estabelecidos. Fato é que, especialistas em modelagem do sistema terrestre publicaram em abril 7 novos cenários de emissões, nesse conjunto, o novo cenário de emissões mais elevado projeta aquecimento geral de 3,5°C até 2100, abaixo dos 5°C projetados antes ao cenário RCP8.5. Govindaswamy Bala, professor do Centro de Ciências Atmosféricas e Oceânicas do Instituto Indiano de Ciências, partícipe do desenvolvimento do cenário mais recente, avalia que, a eliminação do RCP8.5 “deve-se à rápida transição à  renováveis ​​em diversos países, particularmente China, que hoje ocupa o 1º lugar em termos de emissões de carbono”. Detlef van Vuuren, cientista climático da PBL, Agência de Avaliação Ambiental da Holanda, que lidera o desenvolvimento de cenários de emissões incluindo os mais recentes cenários do CMIP7, afirmou que, “cenários não são previsões, são modos de começar a entender o futuro” e, alerta, “se analisarmos cenários elaborados em 2010, tínhamos esse cenário de altas emissões, RCP8.5, que não era implausível à época, poderia ter sido um caminho que teríamos seguido” e, concluindo que, “as emissões atingiram o pico e estão diminuindo nos EUA e Europa e se estabilizando na China.” Quando o RCP8.5 surgiu em 2011 como um dos 4 Cenários Representativos de Concentração, RCPs, ganhou vida própria e suas consequências projetadas dominaram o cenário das mensagens climáticas, em 2016, cientistas atualizaram os RCPs à SSPs, ou, "Caminhos Socioeconômicos Compartilhados", sendo que, os SSPs integraram fatores como crescimento econômico e expansão populacional, com concentrações de gases efeito estufa e o cenário de altas emissões foi mantido como SSP5-8.5, com aquecimento projetado de 4,4°C até 2100. Por fim, essas projeções fundamentam pesquisas climáticas e relatórios, incluindo Relatórios de Avaliação do IPCC e avaliações internacionais e nacionais e, nos novos cenários de emissões, um aumento de temperatura de 1,5°C até 2100 não é possível sem ultrapassar limites, nem mesmo nos melhores casos, já que o risco de mudanças climáticas irreversíveis em algumas áreas e ultrapassar pontos de inflexão críticos estão aumentando. Em conjunto, significa que a Índia não pode descartar as consequências extremas das mudanças climáticas, ao mesmo tempo, não existe caminho plausível à manter o aquecimento abaixo de 1,5°C sem ultrapassagem significativa da meta considerando a trajetória atual de emissões, quer dizer, ultrapassar o limite significa exceder temporariamente o limiar de aquecimento de 1,5°C antes de retornar ao limite até 2100.

domingo, 4 de outubro de 2026

Recursos Hídricos

O Relatório sobre o Estado dos Recursos Hídricos Globais publicado pela OMM fornece atualização, particularmente quantitativa, sobre recursos hídricos globais, focado na variabilidade e tendências hidrológicas, em 5ª edição, analisa disponibilidade de água doce em fontes superficiais e subterrâneas, neve e gelo, vazão de rios, lagos, umidade do solo, águas subterrâneas e armazenamento terrestre combinado, sendo hoje avaliação anual mais abrangente em dados científicos de recursos hídricos em nível global e utiliza fontes de dados e variáveis combinando sensoriamento remoto e observações in loco. Compara o estado atual com dados históricos, analisa entre outros aspectos, variabilidade climática e impacto no ciclo hidrológico com mapas de eventos hidrológicos extremos como inundações e secas no mundo, resultado de consultas a instituições regionais e consultores hidrológicos utilizando centros globais de coleta de dados hidrológicos bem como consultoria de especialistas em subáreas como monitoramento de águas subterrâneas e umidade do solo. Possibilita análise retrospectiva das tendências emergentes sendo possível elaborar panorama semestral ou visão geral das tendências após 5 anos, por exemplo, condições de vazão, fluxo médio anual dos rios, constata que 2025 foi dos mais secos em vazão fluvial no mundo nos últimos 35 anos, 1991-2025, ou 36% de bacias hidrográficas apresentaram condições de vazão anual abaixo do normal, 21% de bacias hidrográficas  mostraram vazão acima do normal e, Bacias hidrográficas na América do Norte, no sudeste da América do Sul, no leste e centro da Europa e sudeste da Austrália apresentaram vazões fluviais abaixo ou muito abaixo da média e, globalmente, bacias hidrográficas com vazão normal diminuiram em relação às condições anteriores e, desde 2020, 34% a 38% das bacias hidrográficas apresentaram vazões médias anuais normais enquanto no período anterior, 1991 e 2020, 46% apresentavam condições normais. Quanto ao Armazenamento Terrestre de Água, ATA, categoria que refere-se a água doce armazenada na superfície e subsolo, águas subterrâneas, solo, rios, reservatórios, neve e gelo, houve queda no total refletindo diferentes problemas, como esgotamento das águas subterrâneas, redução da umidade do solo, queda dos níveis de lagos ou reservatórios, perda de neve e gelo glacial, constatando que o ATA mostra declínio desde 2014-2016, com área crescente experimentando condições abaixo do normal, quer dizer, o mundo perde água doce e ganha água do mar, entre 2002 e 2015, menos de 25% das bacias hidrográficas tinham condições de armazenamento abaixo da média, nos últimos 4 anos, 40% das bacias hidrográficas apresentaram condições de armazenamento abaixo da média. A Europa Central e Oriental aoresenta condições de água subterrânea abaixo do normal, níveis abaixo do normal em áreas como o centro dos EUA, partes do México, norte e centro do Chile, nordeste e centro-oeste do Brasil, norte da África do Sul, noroeste da Índia e partes do sul da Austrália apontam ao esgotamento cumulativo dos recursos subterrâneos e um único ano normal ou chuvoso pode não ser suficiente para reverter, destacando que, em 2025, os níveis de umidade do solo estavam abaixo ou muito abaixo dos níveis normais em quase toda a América do Sul, Norte da África, Europa Central e Oriental e Oriente Médio e a umidade do solo estava acima do normal na América do Norte, Índia e em grande parte da África Austral. Em 2025, a ETR, evapotranspiração real, perda combinada de água por evaporação do solo e vegetação e pela transpiração das plantas, afetou o Oriente Médio, Ásia Central, sudeste da Europa e Chifre da África, onde déficits continuaram no 2º semestre e, no Chifre da África, coincidiram com o desenvolvimento de seca, enquanto a ETR acima do normal se estendeu pela China, Índia e bacias hidrográficas do sul e sudeste da Ásia de março a maio até junho a agosto, persistindo localmente até setembro a novembro, na América do Sul registrou ETR abaixo do normal de dezembro a fevereiro e junho a agosto nas bacias dos rios Paraná e São Francisco, o sul da África passou de condições abaixo do normal no início do ano para ETR acima do normal a partir de março. Por fim, resume tendências de armazenamento de água terrestre como medida das mudanças no armazenamento de água em terra, ao constatar que níveis abaixo do normal de armazenamento de água terrestre persistiram no norte e sudoeste da América do Norte, Patagônia, Europa Oriental, Oriente Médio, Ásia Central, leste do Brasil, norte da Índia, partes do norte da Europa, Federação Russa, China e norte da África, dando continuidade ao padrão observado em 2024, em contrapartida, a África central e meridional apresentou condições de armazenamento de água terrestre acima do normal. 

O governador da Califórnia sancionou 7 projetos de lei para regulamentar centros de dados com medidas que exigem divulgação de informações sobre consumo de eletricidade e água, afirma que as leis fornecerão às comunidades mais informações sobre recursos que os centros de dados utilizariam para que avaliem melhor custos e benefícios econômicos dos projetos. Em comunicado, disse que, "as leis, garantem que população  mantenha controle e que aqueles que lucram com centros de dados não o façam às nossas custas", de acordo com as novas leis, grandes centros de dados devem arcar com parte dos custos de modernização da rede elétrica e cumprir exigências estaduais de aquisição de energia, em vez de repassar custos aos consumidores. Desenvolvedores de centros de dados devem informar aos governos e fornecedores de água sobre consumo previsto, sua origem e medidas que planejam implementar para conservar água em caso de seca, com o gabinete do governador indicando que centros de dados terão de arcar com custos de quaisquer melhorias na infraestrutura hídrica. A legislação exclui centros de dados de isenções dos requisitos de avaliação ambiental da Califórnia, sendo que os projetos podem se qualificar à processo acelerado se atenderem padrões estaduais de energia, água e combustível, com as medidas surgindo em meio à preocupação com impacto dos centros de dados na demanda de eletricidade, recursos hídricos e infraestrutura local, à medida que empresas de tecnologia competem para expandir capacidades IA. Pesquisadores da Universidade da Califórnia, Riverside, do Instituto de Tecnologia de Rochester e do Caltech, informam que um grande centro de dados que utiliza resfriamento evaporativo pode consumir mais de um milhão de galões de água/dia no pico de demanda no verão, com a Data Center Coalition, associação comercial do setor, dizendo que estão comprometidos com desenvolvimento responsável alertando que as medidas podem deslocar projetos à outros estados. Khara Boender, diretora de assuntos governamentais do grupo, disse que "a legislação cria incerteza e introduz requisitos potencialmente duplicados que tornam a atividade empresarial na Califórnia uma proposta pouco atraente à centros de dados e outros setores" e, conclui, "a medidas limitarão o desenvolvimento de centros de dados na Califórnia, um mercado em declínio, transferindo criação de empregos, implantação de energia limpa e arrecadação de impostos aos estados vizinhos." O governador Greg Abbott, ordenou à Comissão de Qualidade Ambiental do Texas que suspendesse pedidos de licença de centros de dados como parte dos esforços do estado para fazer cumprir padrões à tais instalações, sendo que a suspensão vigorará até que Conselho de Confiabilidade Elétrica do Texas e Conselho de Desenvolvimento de Recursos Hídricos do Texas concluam as auditorias. A governadora de Nova York, Kathy Hochul, assinou ordem executiva determinando moratória estadual à construção de grandes centros de dados, primeiro estado do país suspender a construção de fazendas de servidores.

Moral da Nota: a rede elétrica chinesa apesar de liderar na expansão de energia renovável, é a maior emissora do gás efeito estufa mais potente do planeta, ou, o hexafluoreto de enxofre, SF6, produto químico sintético que desempenha papel crítico como isolante elétrico em equipamentos de alta tensão, gás inodoro, invisível, não tóxico e não inflamável, no entanto, 24.300 vezes mais eficaz no aquecimento do planeta que o CO2, quer dizer, o hexafluoreto de enxofre permanece na atmosfera por mil anos. As emissões oriundas do setor elétrico onde o gás é usado em disjuntores e equipamentos de alta tensão para evitar formação de arcos elétricos, o SF6 serve como suporte à qualquer rede elétrica moderna garantindo que a eletricidade flua somente quando e onde for necessária, entretanto, quando o equipamento elétrico  chega ao fim da vida útil, grande parte do gás é expelido à atmosfera. Em 2014, o governo chinês foi alertado que o SF6 representa “ameaça potencial ao ambiente global”, suas emissões continuam não regulamentadas com o Ministério da Ecologia e Meio Ambiente, MEE, declarando que concessionárias de energia elétrica chinesas reciclam ou têm capacidade de reciclar 90 % dos resíduos de gás SF6, a custo baixo à redução nas emissões de gases efeito estufa. Por fim, as emissões chinesas quase dobraram de 2011 a 2021 com projeção que continue aumentando, em 2021, o ano mais recente com dados disponíveis, a China liberou 5.100 toneladas métricas de SF6 equivalente às emissões anuais de gases efeito estufa de 29 milhões de automóveis movidos a gás, sendo que em 2025 houve o maior aumento anual nas concentrações atmosféricas globais de SF6 desde que os registros começaram em 1998, sugerindo que as emissões chinesas estão aumentando.