quarta-feira, 30 de setembro de 2026

Frequência

Estudo observacional prospectivo encontrou microplásticos com maior frequência e níveis mais elevados, em amostras de pacientes com tumores malignos no pulmão, embora as conclusões não estabeleçam que as partículas causem câncer, cujos resultados foram apresentados no Congresso da Sociedade Respiratória Europeia, ERS, 2026, embora reforce evidência que plásticos inalados podem atingir e permanecer nos pulmões, o delineamento não permite determinar se contribuem ao desenvolvimento do câncer ou se pulmões doentes retêm partículas de modo diverso. O estudo incluiu 100 pacientes submetidos a broncoscopia diagnóstica, metade tinha neoplasias pulmonares recém-diagnosticadas, enquanto um grupo controle foi submetido à broncoscopia por indicações respiratórias não crônicas, forneceram amostras de lavado broncoalveolar, LBA, e amostras de tecido de vias aéreas disponíveis à metade dos examinados, quer dizer, microplásticos foram detectados em 70% dos participantes e 60% das amostras coletadas. Detecção no LBA, lavado broncoalveolar, ou, tecido de vias aéreas ocorreu entre pacientes com câncer de pulmão que entre controles, 66% e 46%, respectivamente e, pacientes com neoplasias pulmonares, apresentaram 1 partícula de microplástico vista em amostras de LBA, comparada com 0 entre pacientes sem neoplasia, daí, pós ajuste à idade, sexo e exposição ao tabagismo, a carga de microplásticos permaneceu associada à malignidade pulmonar entre aqueles com amostras de LBA e tecido, com pesquisadores observando carga total de microplásticos e detecção geral maior entre os com câncer de pulmão. Por fim, pesquisadores afirmaram que a descoberta reflete dinâmica de partículas específica de cada compartimento, na qual partículas são depositadas, retidas ou eliminadas de modo diferente nos tecidos pulmonares e fluido das vias aéreas.

Vale dizer que a associação não estabelece causalidade, ao passo que os resultados não mostram se microplásticos estavam presentes antes do desenvolvimento do câncer, enquanto tumores pulmonares ou outras alterações relacionadas à doença podem afetar deposição e eliminação de partículas, tornando pacientes com neoplasias propensos a reter material inalado, no entanto, diferenças potenciais na exposição ocupacional, poluição do ar ambiente, doenças pulmonares subjacentes, procedimentos prévios e tipo ou estágio do câncer requerem estudos adicionais. Outro desafio quando se trata de pesquisa de microplásticos são equipamentos de coleta, materiais de laboratório e procedimentos analíticos que podem introduzir partículas de plástico a menos que pesquisadores apliquem controles rigorosos, ao considerar que pesquisas anteriores confirmam que microplásticos são recuperados do tecido pulmonar humano, considerando que investigadores de análise de 2022 notaram 39 microplásticos em 11 de 13 amostras de tecido coletadas em cirurgias. Vale observar que partículas foram detectadas em regiões superior, média e inferior dos pulmões com maiores níveis no tecido pulmonar inferior ao considerar que microplasticos são definidos como partículas de plástico com dimensões entre 1 nanômetro e 5 milímetros, que podem ser fabricados em tamanho ou forma reduzidos através da decomposição de itens maiores incluindo embalagens de alimentos, pneus e tecidos sintéticos, sendo a variedade de tamanhos, densidades, composições químicas e formas, dificulta amostragem e medição padronizadas. Dados de laboratório e estudos expoerimentais associaram a exposição ao estresse oxidativo, sinalização inflamatória, lesão celular e comprometimento da função mitocondrial, sendo que características das partículas e produtos químicos nas superfícies podem influenciar tais efeitos, no entanto, níveis de exposição podem exceder encontrados no dia a dia. Por fim, a revisão de pesquisas sobre microplásticos e saúde respiratória concluiu que partículas podem afetar células e tecido pulmonar, mas, consequências da exposição ambiental rotineira são incertas e classificou evidências de lesão pulmonar, inflamação crônica, estresse oxidativo e comprometimento da função pulmonar como moderadas enfatizando escassez de estudos. A conclusão que se tira é que trata-se de questão emergente de saúde ambiental relevante à pesquisa em prevenção e comunicação de riscos devendo mensurar exposições ocupacionais e ambientais, considerar características do tumor e acompanhar participantes ao longo do tempo. 

Moral da Nota: no Chipre, microplásticos foram detectados na urina de crianças do ensino fundamental, sendo que o estudo encontrou polietileno e polipropileno em amostras de urina de crianças embora pesquisadores alertem à necessidade de cautela em relação aos resultados preliminares. Pesquisadores da Universidade de Catania, Itália, Instituto do Chipre e Universidade de Tecnologia, Tepak, declararam que as descobertas sugerem que crianças podem ser expostas a partículas que permitem a entrada e circulação no organismo, sendo que foram utilizados métodos laboratoriais avançados para detectar partículas de plástico e identificar seu tipo. Constatou variação na quantidade de microplásticos detectada entre crianças, no entanto, o Instituto do Chipre afirmou que o número limitado de participantes e a natureza descritiva da análise impedem que diferenças sejam interpretadas como distinções claras entre grupos, com cientistas do Instituto dizendo que “conclusões são preliminares e devem ser interpretadas com cautela”, que necessitaria estudos mais amplos para determinar se os microplásticos estão sistematicamente presentes na urina das crianças. Vale dizer que, a pesquisa faz parte de conjunto de trabalhos internacionais que examinam exposição humana a microplásticos, foram detectados antes, no sangue, tecido placentário e leite materno em estudos realizados em outros locais, sendo que o polietileno e polipropileno, 2 tipos identificados nas amostras do Chipre, entre os plásticos mais produzidos no mundo e utilizados em embalagens e recipientes.

Em tempo: em 2024, a distribuição do tamanho das partículas apresentou mudança em direção a microplásticos substancialmente menores, diversificou-se a composição dos polímeros passando de predominantemente polietileno em 1991 à mistura mais ampla em 2024, incluindo PET, PVC e poliestireno, com mudanças nos padrões de produção e uso. Análise Py-GC-MS confirma presença de microplásticos em subamostra e identifica resíduos superficiais contendo enxofre em 2024 partículas, levantando questões sobre a adsorção de poluentes atmosféricos concomitantes e relevância toxicológica. O exame histopatológico mostra maior inflamação e fibrose pulmonar com microplásticos, independente da época da coleta, corroborando plausibilidade biológica, outro estudoatravés da pirólise-cromatografia gasosa-espectrometria de massa, Py-GC-MS, mostrou aumento nos níveis de microplásticos nos pulmões ao longo de 33 anos, quer dizer, a produção de plástico disparou na década de 1990, quase 6 vezes mais e, hoje, produz 600 milhões de toneladas métricas/ano. Em suma, estudo comparativo de pulmões de autópsias realizadas em um mesmo hospital em épocas diferentes, ou, 1991 com 42 casos 8 apresentaram microplásticos, 19%, e em 2024 estudo de 57 casos mostrou 44 com microplásticos ou 77%.

Conclusão: a Califórnia inicia processo que pode levar à regulamentação de microplásticos, em 1º de outubro, adicionará microplásticos a lista de substâncias que, segundo evidências, podem ser prejudiciais às pessoas ou ao meio ambiente e que são candidatas a regulamentação mais rigorosa.


terça-feira, 29 de setembro de 2026

Ártico Global

O livro de Mia Bennett e Klaus Dodds’, “Unfrozen”, se refere ao derretimento do gelo Ártico devido mudanças climáticas e, portanto, perspectiva ecológica busca mostrar que processos geopolíticos e ecológicos do Ártico se interligam e não podem ser compreendidos isoladamente. Reflete a insistência dos autores’ que ecologia e política devem ser consideradas em conjunto sendo que a interconexão entre mudanças ecológicas e geopolítica é clara quando se trata de eventos que levaram 8 estados regionais, ou, Canadá, Islândia, Dinamarca/Groenlândia, Noruega, Finlândia, Rússia, Suécia e EUA estabelecerem vínculos cooperativos. Argumentam modo persuasivo que o interesse na proteção do ambiente Ártico e o relaxamento das tensões Leste-Oeste a partir de fins da década de 1980 encorajaram cooperar, com os autores apresentando argumentos em 10 capítulos que oferecem visão completa da história do Ártico e como mudou ecológica e geopoliticamente desde tempos antigo, via eventos que caracterizam e caracterizaram a região. Explicam que, embora o clima Ártico tenha mudado, o aquecimento o tornou irreconhecível não apenas à cientistas que o estudam, mas, às pessoas que o habitam por milênios, no geral, os autores fornecem análise do que acontece na região e, vincula presente e passado compreedendo o desenvolvimento regional desde fins dos anos 2000. O derretimento Ártico gerou “lutas por e entre grupos pelo poder sobre, recursos, espaço,território e influência de características em seu poder”, quer dizer, intimamente ligados, considerando que o derretimento do gelo não afeta apenas o ecossistema Ártico mas tem consequências geopolíticas inevitáveis, o meio ambiente e populações são direta e profundamente afetados pelo aquecimento global, que causa desastres ecológicos como incêndios florestais de tundras e transforma o Ártico em novo oceano em muitos aspectos. Em futuro próximo é provável que o gelo em muitas áreas, derreta, deixando corpos de água, mudança com implicações geopolíticas e jurídicas, conforme explicam os autores, daí, o exemplo a respeito do Art. 234 da Convenção da ONU sobre Direito do Mar, UNCLOS, concedendo aos estados costeiros privilégios especiais para regular poluição marinha em ‘áreas cobertas de gelo’ de sua ZEE, Zona Econômica Exclusiva. 

A Estratégia de Proteção Ambiental do Ártico, 1991, absorvida pelo Conselho do Ártico, fórum intergovernamental que orienta a cooperação regional, desde 2011, os estados do Conselho do Ártico possuem acordos juridicamente vinculativos sobre busca e salvamento, resposta a derramamentos de óleo e cooperação científica e, a partir de 1998, se expandiu admitindo observadores, ou, estados e interessados em envolver-se como estados europeus e asiáticos. Vale a nota que o Ártico não é apenas bastião de riqueza de hidrocarbonetos, mas, fronteira de energia verde com hidrelétrica e eólica como fontes renováveis produzidas, especialmente Islândia, Groenlândia, Noruega e Suécia, cabos submarinos transportando mais de 95% das comunicações digitais oceânicas, vitais em transmitir eletricidade gerada pelas renováveis. A Suécia detém a maior mina de minério de ferro, o Alasca as maiores minas de zinco e outros minerais, por exemplo, cobre, ouro e níquel, encontradas em partes do Ártico, a China, parceira da Rússia, promove a mineração russa, em 2023, assinaram acordo para desenvolver o maior depósito de titânio do mundo na República de Komi, Rússia, considerando ainda terras raras da Groenlândia que atraíram interesses chineses e australianos, bem como formuladores de políticas da UE e EUA, aqui, o detalhe, com o governo da Groenlândia emitindo licenças de exploração e mineração, não foi ainda desenvolvido. A erosão do permafrost dificulta manutenção da infraestrutura e construção de instalações e, variabilidade e mobilidade do gelo marinho colocam em risco o transporte marítimo, portanto, “agravando volatilidade ambiental, o Ártico continua remoto, dispendioso às empresas e carente de mão-de-obra qualificada e de infra-estruturas”, conforme os autores. Por fim, o Acordo Internacional à Prevenir Pesca Não Regulamentada no Alto Mar do Oceano Ártico Central, CAOFA, assinado pelos 8 estados do Ártico, China, UE, Japão e Coreia do Sul entrou em vigor em 2021, ao considerar que peixes constituem importante mercadoria global a regulamentação da pesca é de extrema importância, especialmente inserida em mudanças climáticas que podem alterar a distribuição dos estoques pesqueiros de modo que criar tensões entre os estados, como entre Rússia e Noruega em Svalbard. Em conclusão, autores abordam o impacto das mudanças no Ártico sobre povos indígenas da região forçados a adaptar-se às novas condições ambientais, enquanto rupturas geopolíticas, trouxeram mudanças políticas, por exemplo, indígenas do Ártico cortaram laços com homólogos na Rússia, em contraste, o Conselho Circumpolar Inuit, de 1977, sobrevive e, em 2025, tornou-se a 1ª'Organização de Povos Indígenas’ obter status consultivo permanente na OMI, Organização Marítima Internacional. Atores extraterritoriais focados na governança regional é razão pela qual o Ártico passa por mudança de nome à “Ártico Global”, além do significado geopolítico, o termo “Ártico Global” tem significado ecológico pois indica que o encolhimento do gelo marinho e glaciares, o degelo do permafrost e temperaturas mais elevadas, afetam todo o planeta.

Moral da Nota: geleiras no Himalaia Central de Uttarakhand recuam em média 23,23 m/ano, podendo chegar a taxas de 88 m/ano, conforme estudo que descobriu que o aumento das temperaturas, características das geleiras e topografia moldam o ritmo da perda de gelo. O estudo “Avaliação dependente do tempo da recessão glacial no Himalaia Central Indiano” se baseia em observações e imagens de satélite de 1990 a 2024, descobriu que a altitude da linha de equilíbrio aumentou quase 500 mts em determinadas regiões desde 2000. Conduzido por Manish Mehta do Instituto Wadia de Geologia do Himalaia em Dehradun, com Jyoti Kumari, Girish C Kothyari e Atul Kumar Patidar da Universidade de Estudos de Petróleo e Energia, UPES, Dehradun e publicado no Discover Geoscience, segundo Mehta, “a resposta tinha variado substancialmente entre geleiras individuais, as taxas de recuo variaram de 3,7 metros/ano às geleiras estáveis ou cobertas de detritos, como Bhagirathi e Satopanth, à 88 metros/ano à Geleira Khatling, geleira de gelo limpo”. Encontrou diferença nas taxas de recuo entre geleiras com gelo limpo e cobertas de detritos, sendo que geleiras de gelo limpo são vulneráveis à ablação térmica ou perda de gelo pelo derretimento, enquanto as que terminam em lagos pró-glaciais estão expostas à perda de gelo quando grandes pedaços se quebram em um lago, por exemplo, a geleira Milam, gerou 47 novos lagos glaciais, em contraste, geleiras cobertas por camadas de detritos experimentaram taxas de derretimento mais baixas já que os detritos atuam como escudo isolante natural. Por fim, conjuntos de dados meteorológicos e de reanálise mostraram que o final do século XX, de 1980 a 1999, foi caracterizado por tendência “de aquecimento e secagem” com queda na precipitação e aumento constante das temperaturas, o período pós-2000 no entanto, mudou para fase mais úmida com tendências de precipitação, com o estudo descobrindo que o aumento da precipitação e acúmulo de neve pós o ano 2000  forneceu proteção temporária à algumas geleiras cobertas de detritos do leste e diminuiu taxas de recuo. Em suma, a geometria da geleira, inclinação, aspecto e índice de forma, juntos, respondem por até 46% da variação local na perda de gelo, mesmo com o aquecimento atmosférico sendo o principal motor da deglaciação o estudo concluiu que fatores locais e não climáticos desempenham papel substancial na determinação do modo como glaciares individuais respondem.