quinta-feira, 9 de abril de 2026

Morte e Vida

Renaturalização de rios e córregos alavancam abordar desafios como a perda de espaços compartilhados ou falta de políticas, daí, em 1961, Jane Jacobs, urbanista norte americana, publicar, 'Morte e Vida de Grandes Cidades Norte Americanas', em que defende a importância do desenvolvimento de uso misto ou comercial, residencial e industrial, inserido na coexistência de populações diversas em espaços públicos e concentração de pequenos negócios em bairros. Defende a vida social urbana contra a morte decorrente o crescimento descontrolado por grandes rodovias e a segregação de usos e grupos sociais e, quando adaptação às mudanças climáticas e reflorestamento tornaram-se paradigmas da intervenção urbana, é possível traçar analogia com a vida e a morte de pequenos rios. Deixaram de ser espaços de interação social à se tornar depósitos de lixo social consequente poluição oriunda de fábricas, estacionamento de veículos,construção civil, transformação social que legitimou encaminhamento de rios e córregos nas cidades, realizado sem controvérsias já que eram outros o foco da atenção e, da perspectiva social, o encaminhamento não matou os rios, já estavam mortos. O consenso científico sobre clima questiona canalização defendendo a renaturalização de rios e córregos urbanos buscando restaurar cursos d'água com elementos naturais além de conceituar como entidades vivas, ecossistemas com direitos prejudicados pela urbanidade e sociedade embora tratando-se de minoria ativa que defende, a partir de perspectiva ecológica e científica, soluções na natureza que não se conectam com necessidades, percepções e discursos urbanos. Por conta da morte ecológica fluvial se associa a morte social acompanhada de propostas à biodiversidade para restaurar a vida ecológica de rios e ribeirinhos, além de lhes conferir significado social, pois, sem vida social, investimentos e projetos não interessam a nenhum segmento da população, maioria social, preocupada com incerteza causada pelo desemprego juvenil, insegurança no trabalho, dificuldade de acesso a habitação digna ou esvaziamento de espaços públicos,ruas, rios, prados, florestas e, em consequência, perda de conecções sociais. A morte social dos rios acarreta degradação e uma percepção de insegurança. A pesquisa social qualitativa demonstra que essa percepção não se limita à insegurança física, nem está associada apenas à criminalidade e à sujeira, mas sim, ou, também, a uma insegurança vital. A perda da vida social compartilhada é problema, se distorce o diagnóstico e a intervenção enquanto as pessoas exigem policiamento, limpeza ou segregação, quer dizer, viver separadamente, no entanto, o problema não se resolve sem fortalecer a vida nas ruas, ou, urbana, já que, o esvaziamento das margens fluviais levou à ruptura das redes de vizinhança, fim da confiança cultural na gestão de conflitos cotidianos entre membros e o desaparecimento dos "olhos na rua" de comerciantes e moradores. Por fim, a canalização acabou com a vida social dos rios, nada parece os trazer de volta e as “soluções na natureza” tornam-se técnicas de engenharia que não abordam questões sociais, daí, trabalhar ao longo das margens fluviais remediando o declínio social, apelando à sociabilidade dos espaços públicos, é fundamental,  reconhecer o papel dos pequenos negócios, associações de bairro e empreendedorismo local, enquanto a restauração ecológica pode servir como alavanca no enfrentar desafios sociais, considerando insegurança, perda de compartilhamento e vida social, declínio de pequenos negócios e empregos locais.

Entre nós, o Ministério da Saúde anuncia investimento R$ 9,8 bilhões para adaptar o SUS aos impactos da crise climática, com o conjunto de medidas parte do AdaptaSUS, plano apresentado na COP30, buscando preparar infraestrutura da rede pública aos impactos climáticos. O 14º Congresso Brasileiro de Saúde Coletiva, Abrascão,  reforçou que a crise climática é desafio à saúde pública, citou que, globalmente, 1 em cada 12 hospitais necessita interromper atendimento decorrente o clima severo, além de apresentar o Guia Nacional de Unidades de Saúde Resilientes, documento que orienta construção ou adaptação de UBSs, UPAs e hospitais para resistirem enchentes, tempestades, ondas de calor e demais eventos extremos. O guia integrar o PAC Saúde  estabelece normas à estruturas reforçadas, sistemas autônomos de água e energia, inteligência predial e padrões de segurança, além do ministério criar grupo técnico para detalhar diretrizes de resiliência reunindo especialistas do próprio Ministério da Saúde, Fiocruz, Anvisa, Opas e Conselhos de Saúde. Por sua vez, chega a nota que o Novo Banco do BRICS aprovou financiamento de US$ 370 milhões, R$ 1,7 bilhão, à construção do ITMI-Brasil, Instituto Tecnológico de Medicina Inteligente, São Paulo,  hospital inteligente com IA, ambulâncias conectadas em 5G e telessaúde, projeto apresentado em julho de 2025 articulado na visita à China com 120 mil m² fazendo parte do complexo do Hospital das Clínicas da USP e início das obras previsto para 2026 e funcionamento para 2027, conterá UTIs, enfermarias, emergências, centros cirúrgicos e consultórios e focado na redução do tempo de atendimento de 17h para até 2h em investimento de R$ 110 milhões do governo federal e R$ 55 milhões do governo paulista.

Moral da Nota: a Dinamarca corta emissões de nitrogênio da pecuária e agricultura buscando recuperar ecossistemas marinhos, isto é, reduzir em 9.600 toneladas anuais emissões de nitrogênio oriundas da agricultura, buscando recuperar ecossistemas costeiros glaciais marinhos. As emissões se originam na pecuária intensiva com gado liberando nitrogênio através de excrementos que se transformam em nitratos e amônia, no entanto, a medida prevê quotas à agricultores a partir de 2027 ajustadas conforme  capacidade dos ambientes aquáticos, além de esforços de conversão de terras em áreas naturais. O acordo visa reduzir emissões agrícolas de nitrogênio buscando recuperar ecossistemas marinhos de fiordes, braços de mar em vales glaciais inundados, típicos da Escandinávia, com águas profundas e paredões, valendo a nota que, a Dinamarca se destacou em criar taxa de carbono sobre pecuária pretendendo cortar 9.600 toneladas de emissões anuais através de sistema de quotas. Quer dizer, gado libera nitrogênio pelas fezes e urina que se transformam em amônia e nitratos e, em excesso como fertilizantes ou acumulados em solos e pastagens são levados pela chuva à rios e mares, originando a eutrofização, excesso de nutrientes provocando desoxigenação da água e morte da fauna e flora marinhas. A superfície dinamarquesa, 61%, conforme o Instituto Estatístico Nacional, coloca o país ao lado de Bangladesh como território com maior uso agrícola com a Agência de Meio Ambiente estimando que 7.500 km², 17% da área nacional, sofrem com desoxigenação das águas, daí, necessidade de reduzir 14.800 toneladas anuais de nitrogênio para restaurar a qualidade da água.