quarta-feira, 26 de novembro de 2025

O Fracking

O desenvolvimento de petróleo e gás não convencionais leva a preocupações sobre  impactos nas águas superficiais e subterrâneas, em que contaminação e fraturamento hidráulico introduzem hidrocarbonetos e poluentes nas fontes de água potável. Estudo desenvolvido na Pensilvânia durante 2 anos via recolhimento de 75 amostras de poços residenciais e águas superficiais coletadas em áreas vizinhas e analisadas quanto à presença de hidrocarbonetos leves, além de amostra inserida em MCI, Índice de Contaminação Multicomponente, escala de 0 a 6, na presença de hidrocarbonetos, ou, metano, etano e propano avaliando o nível de impacto. Resultados mostraram evidências de salmoura de petróleo e gás à química da água e metano fugitivo com 62% das amostras de água de poço apresentando ICM superior a 4, ao passo que 71% continham metano 19% acima de 10 ppm, enquanto análise geoespacial determinou que a extensão da contaminação foi maior que a relatada inicialmente, comprovando eventos de comunicação não intencionais resultando em contaminação generalizada de fontes de água subterrâneas em áreas mais amplas que as zonas de impacto especificadas pela regulamentação em vigor. 

Estimativas da Administração de Informação de Energia dos EUA giram em torno de 419 bilhões de barris e 215 trilhões de m³ de petróleo e gás respectivamente, além de  desenvolvimento de xistos compactos tornando-se viável pela combinação de perfuração com fraturamento hidráulico, embora depósitos não convencionais onde petróleo e gás são extraídos tenham  milhares de metros de profundidade, há situações que afetam estratos sobrejacentes até a superfície. O conceito de "fraturamento" se refere ao retorno inadvertido de misturas de fluidos de fraturamento/salmouras de xisto à superfície da Terra conhecido como "fraturamento" e geralmente ocorre quando poços fraturados hidraulicamente interagem com redes de poços horizontais existentes, em que fraturas podem ocorrer com mais frequência à medida que os poços são perfurados com maior densidade e laterais mais longas, aumentando potenciais interações com estruturas geológicas e poços históricos particularmente órfãos e abandonados de difícil detecção. O Departamento de Proteção Ambiental da Pensilvânia documentou 54 incidentes de comunicação entre janeiro de 2016 e maio de 2024 e, quando comparado ao número de poços fraturados hidraulicamente nesse período, fraturas ocorreram em 1% desses poços e se a taxa for aplicada à atividade de fraturamento hidráulico nos EUA em ano típico de 14 mil poços direcionais/horizontais/ano, deve haver aproximadamente 140 fraturamentos/ano no país ou um fraturamento a cada 2–3 dias. Os fraturamentos são impactantes pois forçam os fluidos atravessarem zona maior que a típica de um poço causando falha ou vazamento de líquido, sendo os impactos ambientais do fraturamento atualmente não foram documentados na literatura exacerbando desafios no uso de traçadores geoquímicos à examinar extensão dos impactos na qualidade da água. Por fim, New Freeport, Pensilvânia, EUA, situa-se sobre a formação Greene, conjunto de sequências sedimentares de arenito, xisto, leitos vermelhos, calcário fino e carvão fino e impuro, sendo que a mineração de carvão e extração convencional de petróleo e gás são centrais e a extração do xisto levou ao fraturamento hidráulico com o Departamento de Proteção Ambiental da Pensilvânia emitindo 5.085 licenças, das quais 4.727 à poços de gás entre 1º de janeiro de 2005 e 12 de setembro de 2024, enquanto 237 licenças à exploração de metano em leitos de carvão e 43 licenças à poços de petróleo convencionais foram emitidas nesse período.

Moral da Nota: combustíveis fósseis encontram evidências na água da Pensilvânia contaminada por fraturamento hidráulico, que após 3 anos de observação de descoloração e odores nos poços os moradores de New Freeport lutam por água limpa. Os testes realizados mostram evidências de contaminação por petróleo e gás em área geográfica maior que a relatada inicialmente, conforme estudo publicado e, das 75 amostras testadas, 71% continham metano sendo que 2 dos poços registraram "níveis explosivos de gás metano" cujos "proprietários não tinham ideia que era tão ruim." Além dos problemas de poluição, moradores de New Freeport notaram que seus poços estão secando e, em 2024, entraram com ação coletiva contra a EQT, empresa de fraturamento hidráulico, proprietária da área de poços que é a suposta fonte do fraturamento. O Departamento de Proteção Ambiental da Pensilvânia testou poços em New Freeport e descobriu que a água não era segura para consumo humano, mas não encontrou ligação com a perfuração de petróleo e gás, sendo que New Freeport não é a única cidade da Pensilvânia ter água contaminada pós perfuração de petróleo e gás, refletindo Dimock, comunidade no nordeste do estado sem água limpa há mais de uma década. Por fim, a contaminação das águas subterrâneas representa risco grave à saúde pública na Pensilvânia, onde mais de 25% dos adultos usam poços como fonte de água potável, 10 % a mais que a média nacional, sendo que a água dos poços privados que atendem mais de 3 milhões de pessoas raramente é testada, conforme o programa de Água Potável da Universidade Estadual da Pensilvânia.

terça-feira, 25 de novembro de 2025

Ambição Climática

Eurodeputados que lideraram a delegação do Parlamento Europeu na COP30 reagiram ao seu resultado, com Lídia Pereira, presidente da delegação, dizendo textualmente, “na COP30, apesar dos esforços e do mandato do Parlamento Europeu sobre mitigação e eliminação gradual dos combustíveis fósseis, deparamos com a frente BRICS-Árabe unificada e presidência relutante em corresponder o nível de ambição, lamentamos que o resultado final não tenha ido mais longe". Quanto à adaptação, "o financiamento foi protegido no âmbito do NCQG, quadro de objetivos quantificados coletivos sobre financiamento climático, com recomendação para, pelo menos, triplicar o apoio até 2035, reforçando solidariedade com os mais vulneráveis", por fim, "embora o ímpeto à ação climática global seja mais lento que deveria, o multilateralismo manteve-se e continuamos determinados pressionar pela ambição que a ciência exige”, concluindo, “o resultado da COP30 garante base mínima à ação climática global, mas o ritmo continua insuficiente para atender à urgência da crise, cujo resultado confirma que a lacuna entre ambição climática e reduções de emissões permanece consistentemente grande. Relata que UE veio com intenção de liderar coalizão de países ambiciosos, no entanto, resistência, muito grande inclusive de produtores de petróleo e os equilíbrios geopolíticos mudaram claramente, com o Reino Unido, a UE teve que remar contra a maré para salvar qualquer ambição isolando a Europa do resto do mundo, com Mohammed Chahim, Holanda, vice-presidente da delegação, dizendo que, a UE precisa formar coalizões para evitar que nos isolemos novamente em negociações futuras”.

O Reino Unido segundo a Ministra da Natureza trabalha para mobilizar financiamento à natureza, promover agricultura sustentável à segurança alimentar e tomar medidas para proteger os oceanos, na Cop30 defendeu proteção e restauração de ecossistemas críticos  e o trabalho realizado em casa para restaurar florestas, paisagens e mares como parte do Plano à Mudança. Anunciou na Cop30 o 1º pagamento ao Fundo Cali por empresa britânica, marco importante desde o lançamento que permite empresas como farmacêuticas e de biotecnologia compartilhem lucros com povos indígenas e comunidades locais que protegem a natureza e fornecem recursos genéticos à seus produtos. Trabalha em colaboração com o setor privado e governos para apoiar implementação eficaz do Fundo, inclusive através dos Amigos do Fundo Cali e, esta 1ª contribuição, é  marco nesses esforços com a startup britânica Tierra Viva AI contribuindo ao Fundo Cali e abrindo caminho para que outros sigam o exemplo e contribuam em larga escala.  A Ministra da Natureza, Mary Creagh, disse que "os britânicos já sentem o impacto das mudanças climáticas, de inundações a ondas de calor colocando pessoas vulneráveis ​​em risco, no Brasil, disse, construímos a coalizão global para ações ambiciosas em prol da natureza, único modo de proteger futuras gerações, assumiu compromissos para deter e reverter a perda da natureza, incluindo o lançamento da Declaração de Fertilizantes Reino Unido-Brasil, iniciativa global para reduzir emissões da produção e uso de fertilizantes.” Se associou à iniciativa Saltmarsh Breakthrough protegendo ecossistemas costeiros que ancoram cadeias alimentares marinhas, protegem comunidades contra inundações e armazenam carbono, assumiu meta de reduzir pela metade até 2030 o desperdício de alimentos e diminuir emissões de metano, evitando que o desperdício vá para os aterros sanitários, além de partipar do lançamento do fórum de políticas de créditos de biodiversidade fundado pela Indonésia e apoiado por parceiros globais para atrair investimentos privados na natureza. Anunciou a 2ª Floresta Nacional no corredor Oxford-Cambridge, plantando árvores como parte de compromisso de alocar mais de 1 bilhão libras no plantio e recuperação da natureza, empregos verdes e metas de emissões líquidas zero.  

Moral da Nota: os haitianos repercutiram que o objetivo da COP30 era incorporar ambição à proteção do clima e biodiversidade com acordo final adotado por consenso mínimo, para não dizer fiasco, embora fortaleça financiamento climático faz referência indireta ao petróleo, gás e carvão, responsáveis ​​pelas mudanças climáticas, sendo que países industrializados e emergentes entraram em conflito sobre a questão dos combustíveis fósseis em que exportadores de petróleo e gás bloquearam qualquer menção a eliminação gradual obrigatória. Não há roteiro vinculativo à redução do uso de petróleo, gás e carvão, ao contrário da COP28 em Dubai, em 2023, onde o texto final se referia à "transição para longe dos combustíveis fósseis", quanto ao financiamento climático o compromisso de mobilizar US$ 1,3 trilhão/ano até 2035 com triplicação do financiamento à adaptação em países em desenvolvimento. No caso do Haiti, o desafio é obter parcela equitativa do financiamento anunciado e fortalecer capacidades nacionais à transformar as promessas em resiliência real, sendo que o financiamento prometido apoiaria projetos de adaptação, gestão de água, infraestrutura resiliente, reflorestamento, no entanto, o acesso aos fundos depende da capacidade institucional do país de absorvê-los e gerenciá-los. Quanto a questão do comércio introduzida nas negociações sob pressão chinesa e economias emergentes, com as medidas permanecendo não vinculativas limitando o impacto real e, com a UE desapontada pela falta de plano à eliminação gradual dos combustíveis fósseis, aceitando compromisso para preservar o multilateralismo enquanto os países emergentes ficaram satisfeitos por terem evitado obrigação vinculativa e, por fim, ONGs e povos indígenas da Amazônia denunciam um acordo "insuficiente" diante da emergência climática.